Desde o dia 31 de maio, quando foram anunciadas as doze cidades brasileiras que receberão jogos da Copa do Mundo de 2014, está iniciada a época de preparativos para promover o evento. Todas as circulações de capital relativas ao mundial serão partes de um setor da economia que deve experimentar grande crescimento nos próximos anos: a Indústria Esportiva.
Para o secretário executivo da Associação Brasileira de Indústria do Esporte (Abriesp), Eduardo Sayeg, em um quadro geral, a Indústria do Esporte espera um crescimento da ordem de dez a 15 por cento. O secretário da Abriesp avalia que os gastos com a Copa são contraídos antes do mundial, e os benefícios se iniciam quando a cidade está pronta para ser sede. “As despesas acontecem durante a adequação da cidade e do estádio. Após essa fase, o comércio relativo à Copa passa a aquecer”.
De acordo com o pesquisador da Universidade de Liverpool, doutorando em Indústria do Esporte, Oliver Seitz, os setores comerciais que devem ter maior crescimento com o mundial são as empresas do ramo de turismo, como hotéis e restaurantes. “Além destas, aquelas que vendem produtos de varejo relacionados à temática do futebol também devem se fortalecer, mas este é um investimento mais incerto”, complementa Seitz.
O representante de Marketing Esportivo da empresa paulistana Arena Sports, Renato Chvindelman, atesta o otimismo no setor com relação à Copa. “A expectativa é a melhor possível. Para a pequena indústria, esperamos um substancial incremento na venda de produtos que vão desde itens simples, como chaveiros, camisas, bonés e outros acessórios, até os mais sofisticados, como os licenciados pela Fifa e seus patrocinadores”, explica ele.
A venda de produtos relacionados ao futebol deverá ter grande crescimentoSerá também o setor de turismo o maior gerador de empregos no contexto da Copa, segundo Oliver Seitz. “Em sua maioria, contudo, os empregos criados são temporários. A organização do evento também pode contratar mão de obra temporária para ajudar na realização, mas normalmente eles contam com voluntários”, alerta o pesquisador. “Afora isso, indústrias de produtos de varejo também podem contratar funcionários para ampliar a produção de itens relacionados ao futebol”, explica ele.
Grupo de voluntários recrutados para os Jogos Pan-Americanos de 2007, no Rio Segundo o especialista, a Federação Internacional de Futebol (FIFA) é certamente a entidade que mais lucrará com o evento. “A Fifa praticamente não tem despesas. Ela recebe grande parte das receitas (ingressos, cotas de patrocinadores, venda de produtos licenciados) e deixa os custos nas mãos do país, dos estados e das cidades”, denuncia Seitz.
O que é Indústria Esportiva?
“Basicamente é aquilo que o esporte gira em termos financeiros. É o conjunto de empresas que funcionam em razão do esporte”, define Oliver Seitz. O secretário executivo da Abriesp, explica que o setor abrange todas as atividades comerciais ligadas de alguma forma ao esporte. “A Indústria Esportiva inclui duas linhas de comércio. Diretamente, há atributos como infra-estrutura de locais, equipamentos, materiais e serviços vinculados ao esporte. No caso de megaeventos, há também atividades como direitos de transmissão, comercialização de produtos relacionados, entretenimento e hotelaria”, explica Sayeg. Ele declara que, atualmente, a Indústria do Esporte movimenta 35 bilhões de reais por ano. “Somando-se todas as atividades, o setor vem registrando um crescimento médio de dez por cento ao ano na última década, enquanto o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) Nacional registrou média de crescimento de quatro por cento”, declara o secretário.
Seitz resume os aspectos essencialmente esportivos do setor: “Uma organização esportiva precisa de capital para investir em salário de atletas, equipamentos e estruturas. Para isso, ela cobra ingressos de torcedores pelo acesso ao estádio, busca patrocinadores interessados em vincular sua marca ao clube e ao esporte, e procura veículos de comunicação para a transmissão das partidas, além de, eventualmente, capitalizar em cima do valor de rescisão de contratos”.
O período pós-Copa
Alguns fatores financeiros da Copa 2014 estão ainda em fase de especulação, como explica o pesquisador da Universidade de Liverpool. “É muito difícil prever um balanço de gastos e receitas cinco anos antes do mundial. Na maioria dos casos, o saldo da economia nacional é irrisório, mas vai depender muito de como o país vai tratar o evento”, analisa ele. Segundo Seitz, para a indústria, é provável que as receitas em vendas sejam contrabalanceadas com a possibilidade da produção industrial como um todo cair, devido ao mês de festa no país. “Muita gente vai trabalhar menos na ocasião”, justifica ele.
As FanZones recebem milhares de turistas que não conseguem ingresso para os jogos
O setor de marketing esportivo espera um grande legado financeiro. “Acredito que teremos um grande incremento no número de ações (diretas e indiretas) e campanhas publicitárias, pois se trata um evento de grande porte. Existem multinacionais envolvidas e a circulação de dinheiro é enorme”, afirma Renato Chvindelman, da Arena Sports. Eduardo Hatschbach, da Speed Sports, compartilha do otimismo. “A expectativa de aquecimento da economia vai além do campo da Indústria do Esporte”, aponta o diretor de marketing.
O Estádio Joaquim Américo deve receber benfeitorias para sediar jogos da Copa 2014Apesar do otimismo, Eduardo Sayeg, da Abriesp, fala sobre a chance do evento ser uma grande decepção, caso não haja comprometimento. “Se as metas forem cumpridas, teremos um país melhor a partir de 2014. Sem dúvida o legado será imenso em infra-estrutura, cultura e modernização. Mas não podemos esquecer que ainda há muito que fazer”, alerta o secretário.
Rafael Neves
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