sexta-feira, 1 de julho de 2011

Hora de voltar a falar de Doping

O "Esporte que você não vê (mas devia)" acabou passando por mais um período de inatividade, mas julho chegou aí e nós estamos de volta. Aliás, é um texto bem desagradável, mas cheio de coisas que precisam ser ditas.

Onde a pureza perde a razão

Eu já escrevi sobre Doping aqui no Blog. Neste texto, fiz uma espécie de histórico de como o Doping entrou na rotina do esporte profissional. Pois bem. César Cielo, campeão olímpico dos 50m nado livre em Pequim-2008, foi pego juntamente com outros três nadadores (Nicholas Santos, Vinícius Waked e Henrique Barbosa) em um exame anti-doping referente ao Troféu Maria Lenk, em maio.

O Globoesporte.com, que no afã de ser o primeiro a dar o furo costuma escrever coisas sem checar direito, já publicou uma matéria condenando os quatro sem ouvi-los (claro que provavelmente já terão se retratado ou mudado o texto quando você estiver lendo) e ainda colocou o título de "Até tu, César?". Não é bem assim. César Cielo já mandou uma nota de esclarecimento explicando que o resultado é apenas devido a um erro na manipulação de um suplemento, lícito, que ele e os outros três sempre tomaram. Aparentemente, as doses saíram com a quantidade errada de furosemida, um componente proibido. Em primeira instância, chegaram a considerar banir os quatro do Mundial de Shangai, que começa no fim do mês. Mas a punição, aparentemente, será apenas a perda dos resultados obtidos no Maria Lenk.

E agora? Em que acreditar? César Cielo é um nadador exemplar, que alega (e nunca houve porque desconfiar) sempre ter exímia preocupação com os medicamentos, para saber se não contêm nenhuma substância proibida pelas autoridades. Por outro lado, há exemplos históricos de atletas exemplares como ele, que de repente, zás! Eram pegos no antidoping e despojados de medalhas olímpicas ou de mundiais. Em algumas modalidades isso ocorre mais, em outras menos, mas desde que o Doping ficou tão forte que passou a exigir um controle anti-doping para combatê-lo, a suspeita paira sobre o esporte como uma névoa negra que nunca se dissipa.

Fica difícil confiar no esporte desse jeito. César Cielo, até que se prove o contrário (porque esse incidente definitivamente esteve longe de ser uma prova), é um atleta íntegro e exemplar, que se valeu a vida toda apenas de um treinamento metódico e seu talento natural. Mas há vários Cielos pelo mundo afora, e alguns acabam sendo despojados de credibilidade quando ninguém espera, e de fato se comprova que foram dopados. Por mais honestos que sejam o atleta e sua equipe, jamais estarão acima de qualquer suspeita, porque o sistema não o permite mais. Infelizmente. Mas repito: a imagem de César Cielo deve permanecer imaculada enquanto nada for comprovado.

Isso é muito triste, porque essa situação pode acabar degenerando o esporte, pouco a pouco. A cada Olimpíada vai ficar mais difícil acreditar nos Jogos como um evento onde se celebra o esporte como um valor da humanidade, porque há corrupção em todos os setores do COI (Comitê Olímpico Internacional). Há o dinheiro, que cada vez mais distorce resultados e decepciona pessoas. Há a televisão, que por várias vezes manipula o evento para deixá-lo adequado às suas pretensões. E há o doping, que transforma herois nacionais em vilões dignos de desprezo com um simples resultado de exame de urina.

O esporte profissional é movido pelo público que o acompanha, e cada vez mais a gente vê pessoas parando de se interessar porque "Hoje em dia eles só pensam em dinheiro", porque"Ninguém sua a camisa como antes", e por aí vai. Até onde irá a fé do público? Até quando ainda haverá pessoas que não se sentem um bando de otários por acompanhar um esporte manipulado e sujo? Eu ainda faço parte desse bando de otários, e me orgulho disso, porque o esporte é algo excitante e apaixonante, mesmo com tanta coisa jogando contra. Mas não garanto que as futuras gerações terão a mesma paixão que temos.

As Olimpíadas da Antiguidade, na Grécia, começaram em 776 a.C. Acabariam só em 339 depois de Cristo, ou seja, mais de um milênio, porque os romanos passaram a considerá-la um festival pagão (sim, os Romanos já eram cristãos naquela época). As Olimpíadas da Antiguidade tiveram começo, meio e fim. Mas duraram exatamente 1115 anos. As modernas, com apenas 115 (começaram em 1896), já parecem estar em uma crise de identidade que não me dá esperança de nem mais um século próspero como o último foi.

Eu não gostaria de enxergar essa crise, não gostaria de presenciá-la, mas ela está aí, e quem a refuta está apenas se enganando. O esporte profissional está cada vez mais falso e caminhando rumo à própria destruição. Impossível prever quanto tempo vai levar. Mas acontecerá.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

História Pitoresca do Esporte Mundial - 6


Hoje a história pitoresca é sobre futebol brasileiro. Se você é um torcedor com 20 anos de idade ou mais, deve se lembrar desse episódio:

Disk-Marcelinho

Marcelinho Carioca tinha 23 anos de idade quando foi vendido do Flamengo para o Corinthians, em 1994. No Parque São Jorge, depois de três ótimas temporadas, quis dar um passo adiante e iniciou sua aventura européia acertando com o Valência, da Espanha, pela impressionante quantia de 7 milhões de dólares.

Sua força de vontade em jogar pelo clube castelhano talvez não fosse das maiores, porque lá ele atuou em apenas cinco partidas ao longo de uma temporada, esteve fora de forma e amargou o banco de reservas. Já em 1998, só pensava em voltar ao Brasil. E quem foi que repatriou o jogador? Se você disse “o Corinthians”, a resposta está errada.

O passe de Marcelinho Carioca foi adquirido pela Federação Paulista de Futebol, então presidida pelo bigodudo e pouco carismático Eduardo José Farah. Foi a Federação que recomprou o Pé-de-Anjo pelo mesmo preço com o qual ele tinha saído do Timão, e claro, a ideia era ganhar dinheiro com isso. Para tanto, criaram uma coisa chamada Disk-Marcelinho.

O Disk-Marcelinho era o seguinte. Pela módica quantia de três reais, qualquer pessoa poderia ligar para um número 0900 e votar em qual dos quatro grandes do Estado de São Paulo (Corinthians, Palmeiras, São Paulo e Santos) deveria ser o novo lar de Marcelinho. Com esse ardil, esperavam arrecadar 15 milhões de reais em ligações, o que seria mais ou menos o equivalente ao que foi gasto para tirar o craque do Valência.

Depois de doze dias de ligações, o veredicto: torcedores da Fiel demonstraram satisfação com o período em que Marcelinho esteve lá e esmagaram a votação com 62,5% do total. Foram seguidos de longe por torcedores do São Paulo (20,3%), Santos (9,5%), onde ele ainda iria jogar anos mais tarde, e Palmeiras (7,7%).

O faturamento total da brincadeira foi inferior a 2 milhões de reais, ou seja, mal deu 10% do que a FPF gastou para repatriar Marcelinho. A receita foi ainda menor porque aconteceu o sorteio de cinco carros Audi, previstos no regulamento. Mó prejú, meu! Eduardo José Farah, chefão da FPF, perdeu a eleição em 2003 e largou o futebol para sempre. Até hoje.

A boa notícia

Os corintianos é que não tiveram motivos para reclamar, pois foi nos três anos seguintes que Marcelinho viveu a melhor fase da sua carreira. Comandado por ele em campo, o Timão ganhou dois Brasileiros (98-99), um Paulistão (99), e aquele legítimo, íntegro, honesto e incontestável Mundial de Clubes da FIFA, em 2000. Marcelinho arrebentou e foi a estrela de todas estas competições.

Disk-Asilo

Em 2007, uma Federação um pouco menos glamorosa, a Goiana, tentou repetir o sistema. Era o "Projeto Craques do Goianão". Funcionou de uma maneira um pouco diferente: a Federação de Goiás contratou, no final de 2006, alguns astros do futebol brasileiro para atuar no campeonato estadual do ano seguinte. Foram contratados doze jogadores, e os torcedores ligavam para escolher um clube (no caso, seu time do coração). O clube mais votado seria o primeiro a escolher entre os doze craques, o segundo escolheria entre as opções restantes, e assim por diante.

E se você acha estranho que as maiores estrelas do Brasil joguem em clubes como Itumbiara, Crac e Anapolina, a explicação é a seguinte: os tais craques estavam um pouco, digamos, fora do prazo de validade.

A menina dos olhos da votação, como alguns já podem ter deduzido, era Túlio Maravilha, que já contava 37 anos no costado e quase 30 clubes na carreira. Os outros eram Sinval (39 anos), Paulinho Kobayashi (36), Aldrovani (34), Gian (32), Alex Oliveira (32), Yan (31), Fábio Luís (30), Tiano (29), Anaílson (28), Bruno Reis (28) e Esley (27).

Primeira surpresa: o time mais votado nas ligações, com mais de 38% do total, foi o Canedense, da segunda divisão goiana. O time escolheu, sem pestanejar, a estrela Túlio Maravilha para compor seu elenco. Segunda surpresa: o Goiás ficou apenas em sexto lugar na votação, de modo que coube a eles adquirir o meio-campista Gian. Túlio já havia sido realmente útil ao Canedense, seus gols ajudaram o time a voltar à elite do futebol de Goiás.

O período de votação durou um mês e registrou quase 100 mil telefonemas. Além de ter contratado os jogadores, a Federação pagou seus salários, que variavam entre 15 mil e 30 mil reais, durante o Goianão 2007. A intenção do Projeto era dar mais visibilidade e atrair público aos jogos do campeonato. Quanto a isso, pode-se dizer que funcionou. A média de público do Goianão daquele ano foi superior até à do Campeonato Paulista. Hoje, a média gira em torno de 5.000 torcedores.

Túlio, um guri de quase 42 anos que já é vereador de Goiânia, está sem clube. Mas ainda não anunciou aposentadoria. Marcelinho já, apesar de ser dois anos mais novo.

domingo, 24 de abril de 2011

Testemunha da desgraça

Testemunha da desgraça - O retrato de um não-torcedor que viu, cena por cena, a queda do Paraná Clube

Capítulo 1 – Os leitores clandestinos

Nas últimas e gigantescas férias da UFPR, estive a trabalhar com meu pai em uma Assessoria de Crédito, da qual ele é dono e único integrante. O escritório fica em um prédio no Centro, e o almoço era sempre em um restaurante perto da Praça Osório. Diariamente, andávamos por um trecho de uns 100 metros na Quinze, em meio a camelôs, músicos, manifestantes, e toda aquela variedade de gente bizarra que frequenta o espaço apinhado da rua folclórica.

Mas a única coisa que nos detinha na caminhada era uma banca de revistas, onde líamos na vitrine a principal manchete dos jornais impressos. Comecei o trabalho em dezembro de 2010, quando iniciavam os preparativos para a temporada de futebol do ano seguinte. Dessa forma, passar o olho pela capa de Tribuna e da Gazeta era nossa principal ligação com o futebol paranaense.

Logo na primeira semana, uma ótima notícia: o Paraná Clube derrotara em amistoso o time paraguaio do Cerro Porteño, com um autoritário 2 x 0 na Vila Capanema. Meu pai, paranista desde a época do Ferroviário, comentou que sentia 2011 como “o ano da virada”.

Os dias se seguiram, o trabalho chato na empresa foi em frente, e nossa simbiose com as olhadas de capa de jornal já era tão grande que eu ainda sinto vontade de gratificar o dono daquela banca por tantas capas lidas de graça.

Começou o Campeonato Estadual. Da banca, vimos o Paraná perder a primeira, a segunda, e ufa!; empatar com o já temido time do Coxa. “Agora é hora da reação”, foi o que o pensamos, baseados em outros estaduais em que o Paraná começou capenga e acabou com dignidade.

Mas aí veio uma avalanche de derrotas contínuas e enjoativas, de forma que entrar no restaurante da Osório comentando a derrota do tricolor virou um déjà vu. A cada semana, a gente percebia que a reação estava ficando mais tardia do que o normal, mas rebaixamento não passava pela nossa cabeça.

Passou pela primeira vez quando o Paraná perdeu para o Arapongas, fora, em um campo meio-areia-meio-grama. Àquela altura, eram dez jogos sem vitória e o próximo jogo era a chance para redenção.

O adversário era o incógnito Gurupi do Tocantins, estado onde a galera assiste jogos da primeira divisão sentada em morros ao lado do campo e os jogadores podem ser pagos com bens ao invés de dinheiro vivo.

Capítulo 2 - Hora da virada

Resolvemos romper nossa comunicação exclusiva com a vitrine da banca e fomos ver o jogo contra o Gurupi na Vila. E fizemos isso de primeira classe: meu pai comprou ingressos nas cadeiras sociais. O ingresso de 50 reais nas cadeiras dava auxílio financeiro à gralha depenada e nos protegia da chuva. Era a estreia de Ricardo Pinto no comando.

Em um jogo de nível técnico baixíssimo, o Paraná finalmente venceu, por 3 x 0, e Ricardo Pinto prometeu que o time “tomaria vergonha na cara”.

E tomou: novamente ligados através da banquinha, vimos o Paraná vencer Cascavel, Corinthians-PR e Rio Branco, perdendo apenas para o invencível scratch do Coritiba. Venceu mais uma, contra o Roma, e a fuga definitiva da zona parecia apenas questão de tempo.

Nesse ponto, aconteceram duas coisas: a primeira é que a rotina de trabalho na UFPR me obrigou a parar de trabalhar com meu pai. O namoro com a vitrine da banquinha acabou e minha principal fonte de informação futebolística voltou a ser o globoesporte.com. A segunda é que resolvi romper esse vínculo indo a mais um jogo no estádio, desta vez contra o Botafogo.

O evento, marcado de emoção devido à volta de Caio Júnior à Vila Capanema para comandar o adversário, foi maculada com uma péssima apresentação do Paraná. O time perdeu por 2 x 1 para um Botafogo claudicante que definitivamente não se acertava em campo.

A torcida saiu preocupada do estádio: o que significava aquilo, o time não tinha engrenado?

Pelo jeito, não tinha. Voltou a empatar, perder, rezar e fazer contas. O apogeu desse desespero veio no jogo do último sábado, contra o Arapongas.

Ao invés de ir à Vila para vibrar e apoiar o time, ou estar ansioso para ver a capa dos jornais da legendária banquinha no dia seguinte, eu estava melancolicamente sentado na frente do meu laptop, lendo coisas sobre o meu TCC e acompanhando o jogo pela Transamérica e pelo Globoesporte.com.

Capítulo 3 – A batalha final

E começou o jogo. O Paraná saiu perdendo, virou, e estava numa situação pitoresca. Segurando a vitória, ficaria em situação confortável, precisando apenas ganhar do já rebaixado Cascavel para escapar na última rodada.

Se levasse um gol ali, já estaria simplesmente rebaixado com uma rodada de antecedência. E foi o que aconteceu, aos 38 minutos do segundo tempo. Era o fim.

Meu twitter foi imediatamente invadido com comentários a respeito. 10% eram análises sobre a queda, 5% eram lamentações, e 85% eram piadinhas sinceramente engraçadas. Fazer humor das desgraças, a própria e a alheia, é inerente ao ser humano. Eu também fiz piadinhas. Mas era rir para não chorar. Não vejo graça nenhuma nisso.

Não vejo graça em observar um clube jovem e ao mesmo tempo tradicional, fruto do esforço de tantas gerações de aficionados por futebol, nessa situação. Não vejo graça em notar que um time que estava nas oitavas-de-final da Libertadores há apenas quatro anos, vive em estado tão precário.

Não vejo graça, principalmente, em ver as torcidas do Coxa e do Atlético comemorando um fato que diminui a importância do nosso estado diante dos ciclopes de São Paulo e Rio de Janeiro.

Éramos três times a figurar na elite, reivindicar maior espaço, marcar presença em competições continentais e impor respeito. Agora somos apenas dois. Enquanto isso, fenômenos bizarros como uma filial do Corinthians brota aos pés do Parque Barigui e se segura na primeira divisão. Vocês acham isso legal?

Capítulo 4 - Alvorada

Sou torcedor do Coritiba, e poderia estar escrevendo sobre o título tão brilhantemente conquistado hoje. Mas poucas coisas na vida me deixaram tão triste quanto o rebaixamento do Paraná Clube ontem.

Meu pai e alguns dos meus melhores amigos são paranistas, e aqueles que realmente se importam com o futebol jamais o deixarão de ser. Eu também não deixaria. Mas partiu meu coração ver o desfecho de uma tragédia que, embora fosse anunciada, foi sempre tratada como reversível pela torcida. O tempo foi passando e ninguém queria acreditar. Mas aconteceu.

O futebol exerce uma influência intrigante na sociedade. As paixões e devoções se acentuam nas vitórias, quando o time está bem, mas ainda mais nas fases de penúria. Quando um time se levanta, depois do vendaval (que pode durar poucos meses ou muitas décadas), seus torcedores estão ainda mais enamorados pelo time. Difícil entender o motivo.

Mas não é preciso lembrar que surpresas acontecem. No exato ano em que caiu para a segundona do Paulistão, em 2009, o Guarani de Campinas subiu para a Série A do Brasileirão. Taí uma coisa ainda mais enigmática do que a paixão dos torcedores durante as crises, porque o time era mesmo uma droga. Quem sabe se o Paraná não cumpre também esse destino?

quarta-feira, 20 de abril de 2011

História Pitoresca do Esporte Mundial - 5

Os prisioneiros do café

Em 1932, as Olimpíadas aconteceram em Los Angeles, EUA. Se você foi bom aluno de história, deve lembrar que em 1929 houve a Grande Depressão. Com as economias quebradas, os países mandaram aos EUA delegações pequenas, apesar do esforço da organização.

O Brasil sentiu isso diretamente. O esporte ainda estava longe de ser prioridade no governo daqui, mas o já empossado Presidente Getúlio Vargas ofereceu o Navio Itaquicê para a CBD (Confederação Brasileira de Desportos). Um gesto muito altruísta, não fosse por uma condição: para pagar a viagem, embarcaram 55 mil sacas de café junto com os atletas. O café deveria ser vendido em portos no caminho entre o Rio de Janeiro e Los Angeles.

Ato 1: a ida

Embarcaram no navio 375 pessoas, das quais apenas 82 eram atletas brasileiros (o restante eram dirigentes, treinadores e gente que conseguiu carona). A missão de vender café (que ainda era o grande carro-chefe da economia brasileira) não seria tão difícil décadas antes. Mas a crise assolava todos os mercados, e o café não escapou à regra. Por isso, se você imagina que eles não conseguiram vender quase nada, acertou. O Itaquicê chegou ao canal do Panamá com os porões cheios e os atletas com os bolsos vazios.

Na hora de cruzar o Canal (na época sob domínio dos EUA), mais um problema. Havia um pedágio a ser pago para fazer a travessia, exceto para Navios de Guerra. Na malandragem, o pessoal da CBD instalou dois canhões no convés do Itaquicê e o registrou como navio militar. Não adiantou: os funcionários do Canal notaram pequenos detalhes como a falta de fardas e armas daquela alegre e colorida tripulação tupiniquim, e não se deixaram enganar. Foi preciso mandar um telegrama ao Rio, pedindo dinheiro, e esperar quatro dias pela chegada da verba.

Depois de um mês de viagem estafante, dois Oceanos e uma tempestade que causou enjôos em quase toda aquela turma que jamais havia navegado antes, o Itaquicê chegou a Los Angeles. No porto de San Pedro, informaram à delegação que era cobrado o preço de um dólar para cada pessoa descer do navio. Com a ínfima quantia levantada com a venda das sacas, só dava para desembarcar 45 dos 82 atletas. Fizeram uma lista com os que tinham mais chances (não de medalha, é claro, mas de um desempenho digno) e os demais simplesmente ficaram presos no navio!

Outros treze atletas pagaram sua “fiança” do próprio Bolso, elevando o número de atletas do Brasil para 58. Os prisioneiros do café que não se vendeu rumaram para San Francisco, onde o desembarque era gratuito. Mas eles teriam que viajar todos para Los Angeles por terra, o que acabou não acontecendo, e eles voltariam ao Brasil sem competir.

Apenas um dos rejeitados deu um jeito: o corredor paulista Adalberto Cardoso. Tendodescido em San Francisco, imediatamente saiu correndo, caminhando e pegando caronas para percorrer os 550 km que separam as cidades em apenas dois dias.

Chegou a Los Angeles, no estádio Coliseum, com a incrível antecedência de dez minutos para sua corrida, os 10.000m. Teve tempo de calçar as sapatilhas, colocar o uniforme, fazer duas flexões de aquecimento e se alinhar para a largada. Chegou em último, vários minutos depois do vencedor, mas foi recompensado: o público no estádio ficou sabendo da sua odisseia para simplesmente poder estar ali, e ele foi aplaudido de pé.

Sobre os demais competidores, não há muito que falar. Ninguém conseguiu medalha. Um atleta do Salto com Vara perdeu a chance de ganhar um bronze se fizesse seu recorde pessoal, os demais ficaram em último lugar, e a equipe de pólo aquático ainda protagonizou um papelão ao agredirem o árbitro de uma partida e saírem vaiados da piscina.

Ato 2: a volta

Fim da aventura, todos novamente aboletados no Itaquicê, era hora de voltar para casa. Depois de quase um mês de viagem, a delegação desembarcou no porto do Rio de Janeiro. É improvável que os atletas esperassem uma recepção de gala, com banda, caviar e champanhe, mas o buraco ficava mais embaixo do que eles imaginavam.

Ainda durante a viagem de ida, no dia 9 de julho, estourou no Brasil a Revolução Constitucionalista de 1932. Os Estados de São Paulo, Rio Grande de Sul e Mato Grosso do Sul se levantaram contra o governo, iniciando um conflito armado que só acabaria em outubro daquele ano.

Boa parte dos atletas da delegação eram paulistas, e o Rio de Janeiro (capital federal) era potencialmente perigoso para eles. Viajar por terra até São Paulo, nem pensar, iriam acabar envolvidos em um tiroteio ao virar a primeira esquina. A solução encontrada é descrita por Maurício Cardoso, na obra 100 anos de Olimpíadas:

“Os 32 atletas paulistas nem saíram do porto no Rio. Ali mesmo embarcaram em um cargueiro que os deixou em Ilhabela, no litoral norte do Estado de São Paulo. De lancha atravessaram o canal de São Sebastião. Em terra firme, empreenderam a pé uma caminhada até a capital. Gastaram oito horas para escalar a Serra do Mar e pernoitaram num casebre à beira da estrada. No outro dia uma carona de caminhão os deixou em Caçapava, a 117 quilômetros de São Paulo. Depois de obter um salvo conduto do comandante local das tropas federais [seus “inimigos”], o grupo pôde embarcar no trem que finalmente os levou à capital

Foi com certeza o episódio mais glorioso da participação brasileira na Olimpíada de Los Angeles.”


sexta-feira, 15 de abril de 2011

A Guerra da TV - Parte 4

O mundo dos direitos televisivos do Brasileirão está em uma verdadeira revolução. O sistema que perdurou incontestável durante 23 anos caiu por terra, de forma surpreendente, enquanto esta série de artigos já estava em andamento.

Mas “A Guerra da TV” vai seguir seu curso original. O capítulo de hoje, número 4, vai falar de como funcionava a venda dos direitos até 2010, quando ninguém imaginava este grande racha no Clube dos 13.

O capítulo 5, final, vai explicar em detalhes como ficará a situação a partir de agora. Mas o futuro ainda é uma grande incógnita, precisamos esperar a história seguir seu curso por mais algumas semanas. De nada adianta publicar um texto analítico e profundo sobre algo que já pode estar diferente no dia seguinte.

Até lá, aproveitem as outras atrações do Blog.

4

Sobre Davi e Golias

2001 foi um ano marcante para o futebol brasileiro em vários sentidos. A seleção brasileira vivia uma crise medonha, quase ficou de fora da Copa 2002 e foi eliminada da Copa América pela poderosa esquadra de Honduras. Em âmbito nacional, Atlético-PR e São Caetano descentralizaram o domínio do Campeonato Brasileiro. O furacão levou o título, propondo um novo modelo de gestão, modernidade e pragmatismo, que dez anos depois é cartilha dos times em crescimento.

Nos bastidores, uma mudança redefiniu o mapa financeiro dos clubes do país. A partir dessa reviravolta, caíram em importância as receitas com bilheteria, patrocínios, venda de produtos, venda de jogadores, licenciamento da marca e sócio-torcedores. Todas essas rendas se tornaram supérfluas diante da grande caixinha que garantia a sobrevivência dos times grandes a cada ano: as cotas de televisão.

O Clube dos 13, que já contava com 20 clubes e controlava o dinheiro da TV há quase 15 anos, dividiu os clubes em grupos hierárquicos, com a finalidade de distribuir a grana de acordo com cada nível. Assim ficou a escala, já mostrada em capítulo anterior:

Grupo 1 – Corinthians, São Paulo, Palmeiras, Flamengo e Vasco
Grupo 2 - Santos
Grupo 3 – Botafogo, Fluminense, Cruzeiro, Atlético-MG, Internacional e Grêmio
Grupo 4 – Atlético-PR, Coritiba, Bahia, Vitória, Sport, Portuguesa, Guarani e Goiás

Essa escala valia apenas para o pagamento da TV aberta. Os valores da TV por Assinatura, uma grande mina de ouro que havia surgido quatro anos antes, eram já negociados à parte, mas representava um valor pouco significativo perto do total.

Como o futebol brasileiro não tem apenas vinte times em atividade, era também preciso dar alguns trocados para os que não estivessem nessa lista. Por isso, havia na prática mais duas “categorias”:

Renegados – Clubes fora dessa lista que estão na Série A

Mais renegados – Clubes fora dessa lista que estão na Série B

Vamos tomar por base a última divisão feita sob esses moldes, que aconteceu em 2009. Mas o fato de estar na série A ou na B também influiu diretamente na partilha. Na TV aberta, o faturamento foi o seguinte (dados de 2009):

Grupo 1Corinthians, São Paulo, Palmeiras e Flamengo – R$ 21 milhões cada

Grupo 2 Santos – R$ 18 milhões

Grupo 3Botafogo, Fluminense, Cruzeiro, Atlético-MG, Internacional e Grêmio – R$ 15 milhões cada

Grupo 4Atlético-PR, Coritiba, Goiás, Vitória e Sport – R$ 11 milhões cada

Grupo 5Portuguesa - R$ 5,5 milhões

Grupo 6 - Guarani e Bahia –R$ 3 milhões

Grupo 7* - Vasco – R$ 10,5 milhões (como estava na Série B, recebeu 50% do valor ao qual teria direito na Série A)

Grupo 8 “Convidados” (leia-se times da Série A que não faziam parte do bolo): Avaí, Barueri, Náutico e Santo André – Valores negociados no próprio ano.

Consequências do sistema

É claro que o Clube dos 13 sempre defendeu os interesses dos times que o compunham. Enquanto a associação esteve unida, seria impossível que as centenas de times pequenos no Brasil se unissem para reivindicar uma partilha mais igualitária no bolo da TV.

Alguns consideram essa divisão justa. Porque os times que mais recebem são os de maior torcida pelo Brasil, por conseguinte levam mais pessoas ao sofá de casa, na hora do jogo, fora de sua cidade. Têm a marca mais valiosa, dão maior audiência. E são de fato os que disputam os principais títulos, e principalmente, contratam as maiores estrelas.

Mas será que isso não é um efeito cíclico? Algo como o enigma do Ovo e da Galinha? Os doze principais clubes do Brasil estão nas cabeças porque ganham mais dinheiro ou ganham mais dinheiro porque estão nas cabeças?

A resposta para esse enigma, a meu ver, está no ano de 2001, em que se fez a divisão. Até 2001,

haviam sido disputados trinta e uma edições do Campeonato Brasileiro (contando apenas a partir de 1971, já que os títulos de 59 a 70 ainda não haviam sido homologados). Destas, onze (Atlético-MG-71, Inter 75/76/79, Guarani-78, Grêmio-81/96, Coritiba-85, Sport-87, Bahia-88 e Atlético-PR-01) foram vencidas por times fora do eixo Rio-São Paulo. De lá para cá, já se foram mais nove Brasileirões e apenas uma vitória (Cruzeiro-03) fora da elite lucrativa dos direitos da TV.

Os times grandes, em sua maioria (especialmente os quatro do Rio, Corinthians e Grêmio), fizeram verdadeiros rombos em seus cofres nos anos 90, com contratações absurdamente caras, parcerias suspeitas que deram errado e outros malogros financeiros. Em geral, se encheram de dívidas, ainda têm uma legião de credores e vão empurrando a situação com a barriga. Continuam a esbanjar seus milhões com novas contratações.

Voltando ao panorama de 2001: Atlético-PR e São Caetano estavam inaugurando um novo modelo de gestão de futebol. Realista, organizada, contas em dia e bom resultado dentro de campo. De lá para cá, o dinheiro fornecido pela TV aberta e o Pay-per-view desequilibrou essa situação, os grandes voltaram a reinar absolutos, fazer contratações onerosas, contrair dívidas. Os pequenos continuam, como sempre estiveram, a trabalhar com o dinheirinho na conta do chá.

E o que esperar dessa Nova Ordem Nacional dos direitos de televisão? Aguarde o capítulo 5.

Continua...

quarta-feira, 13 de abril de 2011

História Pitoresca do Esporte Mundial - 4

Mais uma quarta-feira, mais uma história pitoresca. Um dos personagens do conto de hoje é Pelé, o Rei do Futebol, por um ângulo que você nunca viu.

O Diamante Negro

Os anos 20 e 30 marcaram o início da profissionalização do futebol brasileiro. Os melhores times do país, especialmente no eixo Rio-São Paulo, começavam a pagar salários e bichos, fazer contratações ousadas de jogadores e cobrar regularmente pelos ingressos.

Depois de dois fracassos nas Copas de 1930 e 1934, o Brasil finalmente fez bonito na edição de 1938, na França. O “scratch branco” como era chamada a seleção brasileira de então(o “escrete canarinho” só nasceu depois de 1950, quando resolvemos adotar a camisa amarela depois do trauma da final de 50) chegou à semifinal. Passou pela Polônia, pela Tchecoslováquia (em dois jogos), perdeu para a Itália e venceu a Suécia na disputa pelo terceiro lugar.

O grande astro do Brasil naquela Copa foi Leônidas da Silva. Brilhou nos três primeiros jogos e, lesionado, não enfrentou na Itália, motivo pelo qual a imprensa daqui atribui nossa derrota. Saiu com a imagem de herói, e o sucesso o trouxe duas novidades.

Na primeira (e mais importante), em 1942, foi vendido do Flamengo para o São Paulo por 200 mil réis, preço recorde até então. Além disso, a Lacta lançou no mercado o chocolate “Diamante Negro”. Foi inspirado no apelido que Leônidas ganhou dos uruguaios quando jogava no Peñarol.

Leônidas foi garoto-propaganda, no lançamento, do chocolate que levava seu nome, e ganhou dois contos de réis (que era um bom dinheiro aquela época, o equivalente a cerca de 100 mil reais). Mas aqueles eram tempos ingênuos e semi-amadores. Os jogadores não tinham empresários, e não havia ninguém dentro do futebol com experiência em ganhar dinheiro com publicidade.

Isso explica o fato de que Leônidas, depois do lançamento do “Diamante Negro”, não tenha recebido parte dos vultosos lucros que a Lacta teve com a venda do chocolate nas décadas seguintes. O motivo? Seu apelido não era uma marca registrada.

Isso abriu os olhos do garoto Edson Arantes do Nascimento, que, logo aos 20 anos (mas já vencedor da Copa do Mundo Suécia-1958), patenteou o nome “Pelé”. Todas as empresas que lançaram produtos com o nome Pelé (entre os quais o mais famoso é o Café Pelé) tiveram que pagar royalties ao Rei do Futebol.

Hoje, qualquer apelido idiota que uma sub-celebridade arruma é imediatamente transformado em marca registrada. A partir daí, tal pessoa tem participação nos lucros de qualquer uso público do seu nome.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

História Pitoresca do Esporte Mundial - 3

Mais uma história pitoresca. O episódio de hoje é recente, do ano 2000, e agora você vai conhecê-lo a fundo.

O melhor nado cachorrinho da história

A Olimpíada de Sydney, em 2000, marcou muitas novidades nos Jogos. Uma delas, na natação, foi feita para ampliar a participação do Terceiro Mundo nas piscinas: a permissão de que um atleta de cada país se classificasse sem atingir os índices mínimos. Desde Sydney-2000, as competições de natação têm geralmente mais de 15 séries classificatórias. As primeiras baterias são compostas por nadadores de nível baixíssimo (da África, Ásia e América Central), cujo tempo na piscina é quase o dobro dos atletas de ponta.

Essa nova regalia permitiu, em 2000, um momento marcante na vida do africano Eric Moussambani. Vindo da minúscula nação da Guiné Equatorial, ele ganhou a chance de viajar até a Austrália e representar sua pátria na Olimpíada. Eric treinava há apenas oito meses, numa piscina de hotel de 20 metros (a que se usa nos Jogos tem 50m), que só podia ser usada às seis horas da manhã, antes de aparecer o primeiro cliente.

Consciente de suas limitações, ele queria nadar apenas a prova dos 50m, mais curta, para a qual ele se sentia preparado.
Mas seus treinadores resolveram, de última hora, colocá-lo nos 100m ao invés dos 50m.

A prova dos 100m, composta de uma ida e volta na piscina, era mais tradicional, clássica, e daria mais visibilidade à Guiné
Equatorial. Contrariado, Eric se alinhou no bloco de partida para a primeira série classificatória ao lado de apenas dois nadadores, um do Tadjiquistão e outro do Níger!

Os três se posicionaram para a largada: Às suas marcas... prontos... e o afobado
atleta do Tadjiquistão caiu na água antes do tiro. No susto, o representante do Níger
o imitou, e os dois foram desclassificados por queimarem a largada. Moussambani, esperto, não se mexeu, e como prêmio foi deixado para nadar sozinho.

Veio o tiro, e ele saiu dando o máximo de si. Dava para ver que seu estilo era esquisito, mas ele nadava cheio de disposição e parecia que ia concluir a prova dignamente. Completou os primeiros 50m em 40.97s (os melhores do mundo passavam essa parcial em cerca de 24 segundos), e fez a virada.

Mas sua energia acabou ali. Treinado para os 50m, ele não poupou fôlego para a volta, e chegou à exaustão ainda com uma piscina por nadar. Os últimos 50 metros foram uma odisseia. Nadando um pouco de crawl, um pouco de peito e a maior parte
sem estilo nenhum (algo que parecia o “nado cachorrinho”), ia se arrastando pela água. Faltando uns 15 metros, ele simplesmente parou de se mover para frente e dava impressão de que ia se afogar.

Os fiscais de prova ficaram atentos, prontos para resgatar Eric, mas não foi preciso: no desespero, ele extraiu uma última chaga de energia do corpo e conseguiu tocar a borda da piscina.

Tempo total da aventura: 1 minuto, 52 segundos e 72 centésimos, mais lento do que o tempo vencedor dos 200 metros naquela Olimpíada.
Instantaneamente, Eric se tornou uma celebridade, mas ele não gostou. Humilhado, se recolheu ao vestiário, sentou-se e chorou.
No dia seguinte, conformado, atendeu jornalistas do mundo todo contando sua peripécia na piscina. Enfim, alguém que ainda leva a velha máxima, imortalizada pelo Barão de Coubertin, ao pé da letra: “O importante não é vencer, mas competir”.