Onde a pureza perde a razão
Eu já escrevi sobre Doping aqui no Blog. Neste texto, fiz uma espécie de histórico de como o Doping entrou na rotina do esporte profissional. Pois bem. César Cielo, campeão olímpico dos 50m nado livre em Pequim-2008, foi pego juntamente com outros três nadadores (Nicholas Santos, Vinícius Waked e Henrique Barbosa) em um exame anti-doping referente ao Troféu Maria Lenk, em maio.
O Globoesporte.com, que no afã de ser o primeiro a dar o furo costuma escrever coisas sem checar direito, já publicou uma matéria condenando os quatro sem ouvi-los (claro que provavelmente já terão se retratado ou mudado o texto quando você estiver lendo) e ainda colocou o título de "Até tu, César?". Não é bem assim. César Cielo já mandou uma nota de esclarecimento explicando que o resultado é apenas devido a um erro na manipulação de um suplemento, lícito, que ele e os outros três sempre tomaram. Aparentemente, as doses saíram com a quantidade errada de furosemida, um componente proibido. Em primeira instância, chegaram a considerar banir os quatro do Mundial de Shangai, que começa no fim do mês. Mas a punição, aparentemente, será apenas a perda dos resultados obtidos no Maria Lenk.E agora? Em que acreditar? César Cielo é um nadador exemplar, que alega (e nunca houve porque desconfiar) sempre ter exímia preocupação com os medicamentos, para saber se não contêm nenhuma substância proibida pelas autoridades. Por outro lado, há exemplos históricos de atletas exemplares como ele, que de repente, zás! Eram pegos no antidoping e despojados de medalhas olímpicas ou de mundiais. Em algumas modalidades isso ocorre mais, em outras menos, mas desde que o Doping ficou tão forte que passou a exigir um controle anti-doping para combatê-lo, a suspeita paira sobre o esporte como uma névoa negra que nunca se dissipa.
Fica difícil confiar no esporte desse jeito. César Cielo, até que se prove o contrário (porque esse incidente definitivamente esteve longe de ser uma prova), é um atleta íntegro e exemplar, que se valeu a vida toda apenas de um treinamento metódico e seu talento natural. Mas há vários Cielos pelo mundo afora, e alguns acabam sendo despojados de credibilidade quando ninguém espera, e de fato se comprova que foram dopados. Por mais honestos que sejam o atleta e sua equipe, jamais estarão acima de qualquer suspeita, porque o sistema não o permite mais. Infelizmente. Mas repito: a imagem de César Cielo deve permanecer imaculada enquanto nada for comprovado.
Isso é muito triste, porque essa situação pode acabar degenerando o esporte, pouco a pouco. A cada Olimpíada vai ficar mais difícil acreditar nos Jogos como um evento onde se celebra o esporte como um valor da humanidade, porque há corrupção em todos os setores do COI (Comitê Olímpico Internacional). Há o dinheiro, que cada vez mais distorce resultados e decepciona pessoas. Há a televisão, que por várias vezes manipula o evento para deixá-lo adequado às suas pretensões. E há o doping, que transforma herois nacionais em vilões dignos de desprezo com um simples resultado de exame de urina.

As Olimpíadas da Antiguidade, na Grécia, começaram em 776 a.C. Acabariam só em 339 depois de Cristo, ou seja, mais de um milênio, porque os romanos passaram a considerá-la um festival pagão (sim, os Romanos já eram cristãos naquela época). As Olimpíadas da Antiguidade tiveram começo, meio e fim. Mas duraram exatamente 1115 anos. As modernas, com apenas 115 (começaram em 1896), já parecem estar em uma crise de identidade que não me dá esperança de nem mais um século próspero como o último foi.
Eu não gostaria de enxergar essa crise, não gostaria de presenciá-la, mas ela está aí, e quem a refuta está apenas se enganando. O esporte profissional está cada vez mais falso e caminhando rumo à própria destruição. Impossível prever quanto tempo vai levar. Mas acontecerá.











Chegou a Los Angeles, no estádio Coliseum, com a incrível antecedência de dez minutos para sua corrida, os 10.000m. Teve tempo de calçar as sapatilhas, colocar o uniforme, fazer duas flexões de aquecimento e se alinhar para a largada. Chegou em último, vários minutos depois do vencedor, mas foi recompensado: o público no estádio ficou sabendo da sua odisseia para simplesmente poder estar ali, e ele foi aplaudido de pé.





Sydney-2000, as competições de natação têm geralmente mais de 15 séries classificatórias. As primeiras baterias são compostas por nadadores de nível baixíssimo (da África, Ásia e América Central), cujo tempo na piscina é quase o dobro dos atletas de ponta.
