quinta-feira, 7 de abril de 2011

História Pitoresca do Esporte Mundial - 3

Mais uma história pitoresca. O episódio de hoje é recente, do ano 2000, e agora você vai conhecê-lo a fundo.

O melhor nado cachorrinho da história

A Olimpíada de Sydney, em 2000, marcou muitas novidades nos Jogos. Uma delas, na natação, foi feita para ampliar a participação do Terceiro Mundo nas piscinas: a permissão de que um atleta de cada país se classificasse sem atingir os índices mínimos. Desde Sydney-2000, as competições de natação têm geralmente mais de 15 séries classificatórias. As primeiras baterias são compostas por nadadores de nível baixíssimo (da África, Ásia e América Central), cujo tempo na piscina é quase o dobro dos atletas de ponta.

Essa nova regalia permitiu, em 2000, um momento marcante na vida do africano Eric Moussambani. Vindo da minúscula nação da Guiné Equatorial, ele ganhou a chance de viajar até a Austrália e representar sua pátria na Olimpíada. Eric treinava há apenas oito meses, numa piscina de hotel de 20 metros (a que se usa nos Jogos tem 50m), que só podia ser usada às seis horas da manhã, antes de aparecer o primeiro cliente.

Consciente de suas limitações, ele queria nadar apenas a prova dos 50m, mais curta, para a qual ele se sentia preparado.
Mas seus treinadores resolveram, de última hora, colocá-lo nos 100m ao invés dos 50m.

A prova dos 100m, composta de uma ida e volta na piscina, era mais tradicional, clássica, e daria mais visibilidade à Guiné
Equatorial. Contrariado, Eric se alinhou no bloco de partida para a primeira série classificatória ao lado de apenas dois nadadores, um do Tadjiquistão e outro do Níger!

Os três se posicionaram para a largada: Às suas marcas... prontos... e o afobado
atleta do Tadjiquistão caiu na água antes do tiro. No susto, o representante do Níger
o imitou, e os dois foram desclassificados por queimarem a largada. Moussambani, esperto, não se mexeu, e como prêmio foi deixado para nadar sozinho.

Veio o tiro, e ele saiu dando o máximo de si. Dava para ver que seu estilo era esquisito, mas ele nadava cheio de disposição e parecia que ia concluir a prova dignamente. Completou os primeiros 50m em 40.97s (os melhores do mundo passavam essa parcial em cerca de 24 segundos), e fez a virada.

Mas sua energia acabou ali. Treinado para os 50m, ele não poupou fôlego para a volta, e chegou à exaustão ainda com uma piscina por nadar. Os últimos 50 metros foram uma odisseia. Nadando um pouco de crawl, um pouco de peito e a maior parte
sem estilo nenhum (algo que parecia o “nado cachorrinho”), ia se arrastando pela água. Faltando uns 15 metros, ele simplesmente parou de se mover para frente e dava impressão de que ia se afogar.

Os fiscais de prova ficaram atentos, prontos para resgatar Eric, mas não foi preciso: no desespero, ele extraiu uma última chaga de energia do corpo e conseguiu tocar a borda da piscina.

Tempo total da aventura: 1 minuto, 52 segundos e 72 centésimos, mais lento do que o tempo vencedor dos 200 metros naquela Olimpíada.
Instantaneamente, Eric se tornou uma celebridade, mas ele não gostou. Humilhado, se recolheu ao vestiário, sentou-se e chorou.
No dia seguinte, conformado, atendeu jornalistas do mundo todo contando sua peripécia na piscina. Enfim, alguém que ainda leva a velha máxima, imortalizada pelo Barão de Coubertin, ao pé da letra: “O importante não é vencer, mas competir”.

Um comentário:

Guilherme Giorgi Costa disse...

Muito bom o blog!
Já está nos meus favoritos