sexta-feira, 15 de abril de 2011

A Guerra da TV - Parte 4

O mundo dos direitos televisivos do Brasileirão está em uma verdadeira revolução. O sistema que perdurou incontestável durante 23 anos caiu por terra, de forma surpreendente, enquanto esta série de artigos já estava em andamento.

Mas “A Guerra da TV” vai seguir seu curso original. O capítulo de hoje, número 4, vai falar de como funcionava a venda dos direitos até 2010, quando ninguém imaginava este grande racha no Clube dos 13.

O capítulo 5, final, vai explicar em detalhes como ficará a situação a partir de agora. Mas o futuro ainda é uma grande incógnita, precisamos esperar a história seguir seu curso por mais algumas semanas. De nada adianta publicar um texto analítico e profundo sobre algo que já pode estar diferente no dia seguinte.

Até lá, aproveitem as outras atrações do Blog.

4

Sobre Davi e Golias

2001 foi um ano marcante para o futebol brasileiro em vários sentidos. A seleção brasileira vivia uma crise medonha, quase ficou de fora da Copa 2002 e foi eliminada da Copa América pela poderosa esquadra de Honduras. Em âmbito nacional, Atlético-PR e São Caetano descentralizaram o domínio do Campeonato Brasileiro. O furacão levou o título, propondo um novo modelo de gestão, modernidade e pragmatismo, que dez anos depois é cartilha dos times em crescimento.

Nos bastidores, uma mudança redefiniu o mapa financeiro dos clubes do país. A partir dessa reviravolta, caíram em importância as receitas com bilheteria, patrocínios, venda de produtos, venda de jogadores, licenciamento da marca e sócio-torcedores. Todas essas rendas se tornaram supérfluas diante da grande caixinha que garantia a sobrevivência dos times grandes a cada ano: as cotas de televisão.

O Clube dos 13, que já contava com 20 clubes e controlava o dinheiro da TV há quase 15 anos, dividiu os clubes em grupos hierárquicos, com a finalidade de distribuir a grana de acordo com cada nível. Assim ficou a escala, já mostrada em capítulo anterior:

Grupo 1 – Corinthians, São Paulo, Palmeiras, Flamengo e Vasco
Grupo 2 - Santos
Grupo 3 – Botafogo, Fluminense, Cruzeiro, Atlético-MG, Internacional e Grêmio
Grupo 4 – Atlético-PR, Coritiba, Bahia, Vitória, Sport, Portuguesa, Guarani e Goiás

Essa escala valia apenas para o pagamento da TV aberta. Os valores da TV por Assinatura, uma grande mina de ouro que havia surgido quatro anos antes, eram já negociados à parte, mas representava um valor pouco significativo perto do total.

Como o futebol brasileiro não tem apenas vinte times em atividade, era também preciso dar alguns trocados para os que não estivessem nessa lista. Por isso, havia na prática mais duas “categorias”:

Renegados – Clubes fora dessa lista que estão na Série A

Mais renegados – Clubes fora dessa lista que estão na Série B

Vamos tomar por base a última divisão feita sob esses moldes, que aconteceu em 2009. Mas o fato de estar na série A ou na B também influiu diretamente na partilha. Na TV aberta, o faturamento foi o seguinte (dados de 2009):

Grupo 1Corinthians, São Paulo, Palmeiras e Flamengo – R$ 21 milhões cada

Grupo 2 Santos – R$ 18 milhões

Grupo 3Botafogo, Fluminense, Cruzeiro, Atlético-MG, Internacional e Grêmio – R$ 15 milhões cada

Grupo 4Atlético-PR, Coritiba, Goiás, Vitória e Sport – R$ 11 milhões cada

Grupo 5Portuguesa - R$ 5,5 milhões

Grupo 6 - Guarani e Bahia –R$ 3 milhões

Grupo 7* - Vasco – R$ 10,5 milhões (como estava na Série B, recebeu 50% do valor ao qual teria direito na Série A)

Grupo 8 “Convidados” (leia-se times da Série A que não faziam parte do bolo): Avaí, Barueri, Náutico e Santo André – Valores negociados no próprio ano.

Consequências do sistema

É claro que o Clube dos 13 sempre defendeu os interesses dos times que o compunham. Enquanto a associação esteve unida, seria impossível que as centenas de times pequenos no Brasil se unissem para reivindicar uma partilha mais igualitária no bolo da TV.

Alguns consideram essa divisão justa. Porque os times que mais recebem são os de maior torcida pelo Brasil, por conseguinte levam mais pessoas ao sofá de casa, na hora do jogo, fora de sua cidade. Têm a marca mais valiosa, dão maior audiência. E são de fato os que disputam os principais títulos, e principalmente, contratam as maiores estrelas.

Mas será que isso não é um efeito cíclico? Algo como o enigma do Ovo e da Galinha? Os doze principais clubes do Brasil estão nas cabeças porque ganham mais dinheiro ou ganham mais dinheiro porque estão nas cabeças?

A resposta para esse enigma, a meu ver, está no ano de 2001, em que se fez a divisão. Até 2001,

haviam sido disputados trinta e uma edições do Campeonato Brasileiro (contando apenas a partir de 1971, já que os títulos de 59 a 70 ainda não haviam sido homologados). Destas, onze (Atlético-MG-71, Inter 75/76/79, Guarani-78, Grêmio-81/96, Coritiba-85, Sport-87, Bahia-88 e Atlético-PR-01) foram vencidas por times fora do eixo Rio-São Paulo. De lá para cá, já se foram mais nove Brasileirões e apenas uma vitória (Cruzeiro-03) fora da elite lucrativa dos direitos da TV.

Os times grandes, em sua maioria (especialmente os quatro do Rio, Corinthians e Grêmio), fizeram verdadeiros rombos em seus cofres nos anos 90, com contratações absurdamente caras, parcerias suspeitas que deram errado e outros malogros financeiros. Em geral, se encheram de dívidas, ainda têm uma legião de credores e vão empurrando a situação com a barriga. Continuam a esbanjar seus milhões com novas contratações.

Voltando ao panorama de 2001: Atlético-PR e São Caetano estavam inaugurando um novo modelo de gestão de futebol. Realista, organizada, contas em dia e bom resultado dentro de campo. De lá para cá, o dinheiro fornecido pela TV aberta e o Pay-per-view desequilibrou essa situação, os grandes voltaram a reinar absolutos, fazer contratações onerosas, contrair dívidas. Os pequenos continuam, como sempre estiveram, a trabalhar com o dinheirinho na conta do chá.

E o que esperar dessa Nova Ordem Nacional dos direitos de televisão? Aguarde o capítulo 5.

Continua...

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