segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Copa 2010

A separação

Joel Santana não é mais o treinador da África do Sul. Está certo?

A Federação Sul-Africana de Futebol (SAFA) decidiu hoje pela demissão de Joel Santana do cargo de treinador da seleção nacional, um ano e meio depois de sua chegada e a menos de oito meses da Copa 2010. Segundo o treinador e a própria federação, foi uma "separação amistosa", os sul-africanos decidiram que el não poderia continuar mas desejaram-lhe sorte na carreira, assim como Joel desejou que a seleção faça uma boa campanha na Copa do ano que vem. A pergunta que fica é: foi uma decisão correta?

A situação
O time sul-africano é um dos anfitriões mais contestados da história das Copas uma ano antes da competição. A equipe está demonstrando sinais de fraqueza há um bom tempo. Depois de terem sido eliminados na primeira fase da Copa 2002 depois de uma campanha razoável (uma vitória, um empate e uma derrota), perdendo a vaga para o Paraguai apenas no número de gols marcados, os sul-africanos não foram mais os mesmos. Enquanto a boa geração de Bartlett, McCarthy, Nomvethe, Radebe, Pienaar, Fortune e Zuma ia se dissolvendo, a seleção começou a colecionar fracassos. Foram eliminados ainda na primeira fase das três Copas da África do período (Tunísia-2004, Egito-2006 e Gana-2008), não conseguiram vaga para a Copa 2006. No final de 2008, experimentaram a decepção de não se classificar para a Copa da África, o que não acontecia desde 1994. Nesta época, Carlos Alberto Parreira já havia deixado o comando da seleção por problemas familiares e jogado a batata quente nas mãos de Joel Santana.
Em 2009, iniciaram o ano na 74ª posição no Ranking da FIFA, e não engrenavam nos amistosos. Na Copa das Confederações, um teste real para o grupo. Classificaram-se às semifinais graças a uma vitória contra a Nova Zelândia e um empate com o Iraque. Passando de fase, caíram diante do Brasil por 1 x 0 e quase tiraram o terceiro lugar da Espanha. A campanha animou um pouco a torcida e elevou a moral de Joel Santana, mas depois da competição o país voltou a perder amistosos. Das últimas nove partidas disputadas, a África do Sul perdeu oito (para Espanha, Brasil, Espanha novamente, Sérvia, Alemanha, Irlanda, Noruega e Islândia), quatro delas em casa, e venceu apenas uma (Madagascar, em casa, e por 1 x 0). O cargo de Joel Santana não estava seguro há um bom tempo, a despeito do que diziam os dirigentes, e a seleção corre riscos reais de ser eliminada na primeira fase da sua própria Copa se o time não evoluir.

O time de Joel

O time sul-africano não estava (e ainda não está) conseguindo achar um padrão de jogo. Para citar como exemplo, a primeira fase da Copa das Confederações. Na estreia, contra o Iraque, Joel Santana colocou o time no 4-4-2 contra o pouquíssimo ofensivo time do Iraque (que não marcou nenhum gol na competição) e não passou de um empate no zero. Para a segunda partida, contra a Nova Zelândia, mudou para um 4-5-1, tirou o volante Mhlongo e colocou o veterano Pienaar. Em tese, a estratégia deu certo, venceram os neozelandeses por 2 x 0, embora ambos os gols tenham sido marcados por Parker, o meia-atacante, e não por Fanteni, o atacante, que havia sido colocado lá exclusivamente para isso. Contra a Espanha, resolveu jogar da mesma maneira, um 4-5-1. A diferença desta vez foi o atacante. Vendo que Parker era quem ia para cima dos zagueiros e marcava gols, ele resolveu colocá-lo então como atacante (o que prova que não conhecia ainda muito bem o seu elenco), tirou Fanteni, que pouco havia produzido, e deslocou Dikgacoi para meia-atacante. Talvez eles não tivessem tempo de treinar em suas novas posições, porque a África do Sul não foi páreo para a já classificada Espanha, que jogava com um mistão. Para as semifinais, manteve a base do esquema, que parecia se consolidar (perdeu por 1 x 0 para um Brasil em ótima fase, e com um canhão de Daniel Alves em uma cobrança de falta a menos de cnco minutos do final do jogo), apesar da derrota. Mas para a disputa do terceiro lugar ele mudou novamente o esquema. Deslocou Tshabalala, que não havia apresentado vocação ofensiva nos jogos anteriores, para atacar com parker, e os dois gols da equipe acabaram sendo de Mphela, que entrou na metade do segundo tempo no lugar de Pienaar, que atuava pela meia-esquerda. Impossível achar um padrão.
E agora?

Só o futuro poderá confirmar se a decisão de tirar Joel Santana do comando foi uma decisão acertada. A verdade é que o time realmente não é bom, é muito inferior àquele que se classificou por méritos próprios às Copas de 1998 e 2002 (se a África do Sul não fosse sede, teria sido eliminada) e quase foi às oitavas na segunda oportunidade. Este time atual não conquistou nada de relevante, e está perdendo um amistoso atrás do outro para algumas seleções que sequer irão à Copa. Parreira saiu em abril de 2008 por problemas familiares, deu lugar a Joel, e a seleção continuou sem firmeza, sem padrão de jogo. O que o próximo treinador poderá fazer com as peças que tem em mãos? Convocar alguns reforços da seleção sub-20, que passou de fase e caiu nas oitavas-de-final (eliminados por Gana, a eventual campeã) e mostrou alguma personalidade? Tentar acertar o time que vem jogando, apostando nos veteranos Pienaar, McCarthy e Mokoena? O fato é que alguma coisa precisa ser feita. Nos últimos anos, eu sempre andei meio incrédulo sobre as chances de anfitriões serem eliminados na primeira fase. "Eles sempre dão um jeito", era meu pensamento. Era. Na Eurocopa 2008, ambas as sedes, Áustria e Suíça, caíram fora na fase de grupos, o que me abriu os olhos: "É possível". A África do Sul que se cuide.
Rafael Neves

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