sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Sede da Copa 22, Qatar é eliminado da Copa da Ásia

Bem feito. Depois de derrotar China e Kuwait, o Qatar está eliminado da Copa da Ásia 2011, disputada na casa deles. Derrota nas Quartas-de-final para o Japão, por 3 x 2. Mas até que eles se saíram bem, a previsão era que os "Qataris" caíssem na primeira fase. Ou melhor, não os Qataris, e sim um amontoado de jogadores, que mais parece o time das Nações Unidas, e vestiu a camisa do Qatar.

O minúsculo e tórrido país árabe, que vai ser sede da Copa do Mundo daqui a 11 anos, é o mais puro exemplo de como os Petrodólares compram talentos de fora - e perdem totalmente a sua identidade. Basta olhar a ficha técnica do jogo de hoje.


Reparem nos gols do jogo. Os do Qatar foram marcados em um jogo que poderia ser da Libertadores. O uruguaio Sebastián Soria marcou o primeiro, e Fábio César Montezine, nascido em Londrina, aqui no Paraná, o segundo. Não foi o suficiente.

Dos 23 jogadores do Qatar que disputaram essa Copa da Ásia, só 13 nasceram realmente no Qatar. Dos 11 titulares, apenas 4 são de lá. Dos jogadores mais importantes do time, nenhum. O goleiro é um senegalês, a linha de zaga é comandada por um queninano e por um ganês. Os gols, como você viu, são de reponsabilidade de um brasileiro e um uruguaio.

Por que essa moda de naturalizar?

Vamos combinar. O Qatar é um país pequenino, não passa de uma península colada na Arábia Saudita. Sua área é de 11.437 km², o dobro do nosso Distrito Federal. A população é de apenas 1,7 milhão de pessoas, pouco mais que a região metropolitana de Curitiba.

É claro que eles não têm um poço inesgotável de atletas para formar times competitivos. Assim, o emirado lança mão de seu grande trunfo, a grana proveniente do "ouro negro", para reforçar seus times. O problema não está propriamente neles, e sim nos que se subemtem a trocar de cultura, de religião e até de nome (!), para "parecer" árabes.

Blatter outorga a Copa 2022 ao Qatar. Dinheiro não deve ser problema.
Nascido em Londrina-PR, Fábio César Montezine jogou no São Paulo, no fim da década de 90, antes de se aventurar na Europa (mais precisamente, na República Tcheca). De lá, rodou por times do segundo pelotão do futebol italiano mas acabou se fixando no mundo árabe, em 2006.
A vida no Oriente Médio, apesar de repleta de ouro, riquezas, leite de camela e mel (além das 72 virgens?) para os jogadores de fora, não parece ser muito confortável. Poucos passam mais de um ano lá. Chegam, viram ídolos, enchem as burras de dinheiro e voltam para casa antes de aprender a pronunciar "shukran" (obrigado, em árabe), apesar de ter muito o que agradecer aos sheiks.
A vida do brasileiro

Fábio César é uma exceção. Vai completar seu sexto ano por lá, já deve falar um bom árabe, e até se converteu ao Islamismo (ou reverteu, para usar a expressão que os muçulmanos consideram correta), em 2009.
Fábio César vibra no gol de hoje. Raro exemplo de permanência no mundo árabe
Com tamanha entrega à cultura árabe, é certamente injusto chamá-lo de mercenário. Ele quis ficar lá porque gostou, é um Qatari agora. Mas, uma vez mais, ele é uma exceção. A maioria só quer saber de dinheiro (e no fundo, é mesmo a principal motivação dele), como os sheiks e a FIFA pouco se importam, vemos uma seleção nacional (de um país que vai sediar a Copa em 2022) com apenas metade dos jogadores sendo realmente do país. Sabendo que eles vão receber uma Copa, e certamente não querem passar vexame, quanta gente mais não será comprada para jogar pelo Qatar? Isso descaracteriza o evento.

No futebol, a farra está só começando

Os boleiros, na verdade, não são nada originais. No atletismo (sim, o mais puro, mais olímpico e mais democrático esporte do planeta), essa compra fria e calculista de atletas já completa uns bons 15 anos nessa virada de década.

Nesse caso, a grande ponte aérea é entre Quênia, país dos maratonistas invencíveis, e os países árabes em geral, onde se destacam Qatar e Bahrein.

No Quênia, a concorrência entre os fundistas é gigantesca. Só existem seis provas de corrida de média e longa distância nas Olimpíadas (os 800m, 1500m, 3000m com obstáculos, 5000m, 10000m e a Maratona), e cada prova dá três vagas por país no máximo. Assim, no máximo 18 quenianos podem ir a uma olimpíada com chances (porque em outros esportes eles mal existem). Pode parecer bastante, mas são centenas, milhares de corredores no país com capacidade de travar um duelo de tirar o fôlego contra o Marílson dos Santos na São Silvestre. Dessa realidade, nasceu a compra de atletas do Quênia.

Empurrãozinho nas circunstâncias

O Quênia ainda é um país pobre (IDH de 0,541, embora esteja subindo. O nosso Brasil tem 0,799). Os atletas correm descalços, em intermináveis estradas de terra, circundadas de plantações de produtos que não são destinados a alimentá-los. Os salários são baixos, a estrutura, ruim.

Assim, é difícil dizer para um queniano que fique no seu país, sofrendo rigores financeiros e com a brutal concorrência, enquanto existem vagas na Olimpíada e pilhas de dólares facílimas esperando-os na Península Arábica.

E são tantos que já fizeram isso... simplemente jogam tudo para o alto e trocam até de nome para disfarçar as origens. É um tal de Dennis virando Tareq, Albert virando Ahmed, Stephen virando Saif, Gregory virando Yusuf...
Stephen Cherono se transformou em Saif Saaeed Shaheen, e é recordista mundial pela nova pátria
Já fica difícil saber quem é quem. Que o dinheiro hoje é o fator mandatário nos esportes, não há dúvida. Mas até há poucos anos, os atletas representavam sua pátria-mãe, ainda que fossem pagos por patrocinadores de multinacionais.

Com o aumento dessa tendência, talvez tenhamos que rever um conceito básico. Afinal, faz sentido dividir os competidores por países?

O fundador das Olimpíadas Modernas, Barão de Coubertin, soltou essa frase uma vez: "Um Estado constituído nem sempre é um time que compete unido. Nas Olimpíadas, existe uma geografia esportiva que eventualmente pode ser diferente da geografia política".
O problema é que daqui a pouco não vamos ter geografia nenhuma!

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