domingo, 24 de abril de 2011

Testemunha da desgraça

Testemunha da desgraça - O retrato de um não-torcedor que viu, cena por cena, a queda do Paraná Clube

Capítulo 1 – Os leitores clandestinos

Nas últimas e gigantescas férias da UFPR, estive a trabalhar com meu pai em uma Assessoria de Crédito, da qual ele é dono e único integrante. O escritório fica em um prédio no Centro, e o almoço era sempre em um restaurante perto da Praça Osório. Diariamente, andávamos por um trecho de uns 100 metros na Quinze, em meio a camelôs, músicos, manifestantes, e toda aquela variedade de gente bizarra que frequenta o espaço apinhado da rua folclórica.

Mas a única coisa que nos detinha na caminhada era uma banca de revistas, onde líamos na vitrine a principal manchete dos jornais impressos. Comecei o trabalho em dezembro de 2010, quando iniciavam os preparativos para a temporada de futebol do ano seguinte. Dessa forma, passar o olho pela capa de Tribuna e da Gazeta era nossa principal ligação com o futebol paranaense.

Logo na primeira semana, uma ótima notícia: o Paraná Clube derrotara em amistoso o time paraguaio do Cerro Porteño, com um autoritário 2 x 0 na Vila Capanema. Meu pai, paranista desde a época do Ferroviário, comentou que sentia 2011 como “o ano da virada”.

Os dias se seguiram, o trabalho chato na empresa foi em frente, e nossa simbiose com as olhadas de capa de jornal já era tão grande que eu ainda sinto vontade de gratificar o dono daquela banca por tantas capas lidas de graça.

Começou o Campeonato Estadual. Da banca, vimos o Paraná perder a primeira, a segunda, e ufa!; empatar com o já temido time do Coxa. “Agora é hora da reação”, foi o que o pensamos, baseados em outros estaduais em que o Paraná começou capenga e acabou com dignidade.

Mas aí veio uma avalanche de derrotas contínuas e enjoativas, de forma que entrar no restaurante da Osório comentando a derrota do tricolor virou um déjà vu. A cada semana, a gente percebia que a reação estava ficando mais tardia do que o normal, mas rebaixamento não passava pela nossa cabeça.

Passou pela primeira vez quando o Paraná perdeu para o Arapongas, fora, em um campo meio-areia-meio-grama. Àquela altura, eram dez jogos sem vitória e o próximo jogo era a chance para redenção.

O adversário era o incógnito Gurupi do Tocantins, estado onde a galera assiste jogos da primeira divisão sentada em morros ao lado do campo e os jogadores podem ser pagos com bens ao invés de dinheiro vivo.

Capítulo 2 - Hora da virada

Resolvemos romper nossa comunicação exclusiva com a vitrine da banca e fomos ver o jogo contra o Gurupi na Vila. E fizemos isso de primeira classe: meu pai comprou ingressos nas cadeiras sociais. O ingresso de 50 reais nas cadeiras dava auxílio financeiro à gralha depenada e nos protegia da chuva. Era a estreia de Ricardo Pinto no comando.

Em um jogo de nível técnico baixíssimo, o Paraná finalmente venceu, por 3 x 0, e Ricardo Pinto prometeu que o time “tomaria vergonha na cara”.

E tomou: novamente ligados através da banquinha, vimos o Paraná vencer Cascavel, Corinthians-PR e Rio Branco, perdendo apenas para o invencível scratch do Coritiba. Venceu mais uma, contra o Roma, e a fuga definitiva da zona parecia apenas questão de tempo.

Nesse ponto, aconteceram duas coisas: a primeira é que a rotina de trabalho na UFPR me obrigou a parar de trabalhar com meu pai. O namoro com a vitrine da banquinha acabou e minha principal fonte de informação futebolística voltou a ser o globoesporte.com. A segunda é que resolvi romper esse vínculo indo a mais um jogo no estádio, desta vez contra o Botafogo.

O evento, marcado de emoção devido à volta de Caio Júnior à Vila Capanema para comandar o adversário, foi maculada com uma péssima apresentação do Paraná. O time perdeu por 2 x 1 para um Botafogo claudicante que definitivamente não se acertava em campo.

A torcida saiu preocupada do estádio: o que significava aquilo, o time não tinha engrenado?

Pelo jeito, não tinha. Voltou a empatar, perder, rezar e fazer contas. O apogeu desse desespero veio no jogo do último sábado, contra o Arapongas.

Ao invés de ir à Vila para vibrar e apoiar o time, ou estar ansioso para ver a capa dos jornais da legendária banquinha no dia seguinte, eu estava melancolicamente sentado na frente do meu laptop, lendo coisas sobre o meu TCC e acompanhando o jogo pela Transamérica e pelo Globoesporte.com.

Capítulo 3 – A batalha final

E começou o jogo. O Paraná saiu perdendo, virou, e estava numa situação pitoresca. Segurando a vitória, ficaria em situação confortável, precisando apenas ganhar do já rebaixado Cascavel para escapar na última rodada.

Se levasse um gol ali, já estaria simplesmente rebaixado com uma rodada de antecedência. E foi o que aconteceu, aos 38 minutos do segundo tempo. Era o fim.

Meu twitter foi imediatamente invadido com comentários a respeito. 10% eram análises sobre a queda, 5% eram lamentações, e 85% eram piadinhas sinceramente engraçadas. Fazer humor das desgraças, a própria e a alheia, é inerente ao ser humano. Eu também fiz piadinhas. Mas era rir para não chorar. Não vejo graça nenhuma nisso.

Não vejo graça em observar um clube jovem e ao mesmo tempo tradicional, fruto do esforço de tantas gerações de aficionados por futebol, nessa situação. Não vejo graça em notar que um time que estava nas oitavas-de-final da Libertadores há apenas quatro anos, vive em estado tão precário.

Não vejo graça, principalmente, em ver as torcidas do Coxa e do Atlético comemorando um fato que diminui a importância do nosso estado diante dos ciclopes de São Paulo e Rio de Janeiro.

Éramos três times a figurar na elite, reivindicar maior espaço, marcar presença em competições continentais e impor respeito. Agora somos apenas dois. Enquanto isso, fenômenos bizarros como uma filial do Corinthians brota aos pés do Parque Barigui e se segura na primeira divisão. Vocês acham isso legal?

Capítulo 4 - Alvorada

Sou torcedor do Coritiba, e poderia estar escrevendo sobre o título tão brilhantemente conquistado hoje. Mas poucas coisas na vida me deixaram tão triste quanto o rebaixamento do Paraná Clube ontem.

Meu pai e alguns dos meus melhores amigos são paranistas, e aqueles que realmente se importam com o futebol jamais o deixarão de ser. Eu também não deixaria. Mas partiu meu coração ver o desfecho de uma tragédia que, embora fosse anunciada, foi sempre tratada como reversível pela torcida. O tempo foi passando e ninguém queria acreditar. Mas aconteceu.

O futebol exerce uma influência intrigante na sociedade. As paixões e devoções se acentuam nas vitórias, quando o time está bem, mas ainda mais nas fases de penúria. Quando um time se levanta, depois do vendaval (que pode durar poucos meses ou muitas décadas), seus torcedores estão ainda mais enamorados pelo time. Difícil entender o motivo.

Mas não é preciso lembrar que surpresas acontecem. No exato ano em que caiu para a segundona do Paulistão, em 2009, o Guarani de Campinas subiu para a Série A do Brasileirão. Taí uma coisa ainda mais enigmática do que a paixão dos torcedores durante as crises, porque o time era mesmo uma droga. Quem sabe se o Paraná não cumpre também esse destino?

3 comentários:

Unknown disse...

Sinistro né Raver, excelente visão do fim de semana futebolístico aqui! Infelizmente ei de engolir a vitória do Coxa, infelizmente num clássico, e na Arena... ridículo nosso presidente não dar importancia. Mas tudo bem, 3 anos rindo dos coxinha serie B me conforta um pouco! agora quanto a queda do Paraná, uma pena...

Unknown disse...

Texto incrível! É o que todos nós, torcedores do Paraná, sempre pensamos: o time começa mal, engrena e termina o campeonato sem cair. Uma grande pena e que, com certeza, diminui a importância do futebol no nosso estado! Parabéns pelo texto!

Rafael Rezende disse...

Neves, muito bom o texto, mais uma vez, como sempre.Parabéns!

Eu como paranista,estou profundamente triste com essa queda do meu time. O futebol paranaense perde e muito com isso.
Gostaria de ver meu clube ressurgir, e voltar a ser o que sempre foi: Um dos 3 maiores clubes no cenário do futebol paranense.

Esse ano,e como todo ano, vou torcer para a dupla atletiba chegar a libertadores, do meu Paraná subir para a elite, lugar que nunca deveria ter saído. E que algum time de nosso interior, chegue a série C. de preferência o tradicionalíssimo Operário de Ponta Grossa.

Abraços!