segunda-feira, 18 de agosto de 2008

OLIMPÍADAS 2008 - ATLETISMO MASCULINO

Uma história de centésimos de segundo

Usain Bolt vence os 100m com novo recorde mundial

O jamaicano Usain Bolt é o mais novo campeão Olímpico e recordista mundial dos 100m rasos. Na noite de 16 de agosto, às 21h30(10h30 no horário de Brasília), oito dos homens mais rápidos do mundo se alinharam buscando entrar para a história. Um deles conseguiu. Com 22 anos, Usain Bolt quebrou a barreira dos 9.7s, que há alguns anos parecia intransponível, e levou o ouro da prova pela primeira vez para a Jamaica, que já o merecia a muito tempo.

A marca de Bolt, 9.69s, é um verdadeiro salto na evolução linear que o recorde dos 100m rasos vinham tendo há 40 anos. O mais assombroso é que, nesta vitória em pequim, Bolt desacelerou e já começou a comemorar a vitória antes de cruzar a linha de chegada, assim que percebeu que sua medalha de ouro não estava ameaçada. Esta atitude do jamaicano indica mais do que sua irreverência, mostra que sua fantástica marca ainda pode cair muito mais.

Principalmente a partir da década de 1960, os 100m rasos deram uma história rica e cheia de discussões, a respeito da pista, da altitude, de nacionalidades, de genética, de doping...

As marcas caíam e o mundo se perguntava(e ainda se pergunta): qual o limite do corpo humano?

Década de 1960
Nas Olimpíadas de 1960, em Roma, o alemão Armin Hary venceu os 100m rasos, quebrando uma hegemonia dos EUA que já durava 32 anos(desde que o canadense Percy Willians venceu em 1928). Forte na velocidade mas fraco em modéstia, Hary intitulava-se "o homem mais rápido do mundo". Sua marca, 10.32s, não lhe faria sequer passar da primeira fase em Pequim. Mas ficou notório por provar que não eram os Estados Unidos os únicos a produzir bons velocistas. Nesta mesma Olimpíada, os EUA também perderiam os 200m rasos, cuja vitória coube a Lívio Berruti, da Itália, para delírio da torcida da casa.
Armin Hary, o vencedor dos 100m, ficou famoso por sua rapidíssima largada. Enquanto o tempo em que, na média, um corrdor de 100m demorava para sair do bloco de partida era de 11 centésimos de segundo. Hary tinha um tempo de reação de 4 centésimos. Se corresse na atualidade, sua largada de 4 centésimos seria invalidada e ele queimaria. Pelas regras atuais, o tempo mínimo de reação é 8 centésimos. Se for menor que isso, o atleta está se antecipando à largada, adivinhando o momento do tiro. Com essa técnica, Armin Hary derrotou o americano David Sime e tornou-se o primeiro(e até hoje único) alemão a vencer os 100m rasos.

Nas Olimpíadas seguintes, em Tóquio-64, pela primeira vez um homem correu os 100m em exatos 10 segundos. Na primeira Olimpíada em que os cronômetros marcavam até os centésimos de segundo(a mais alta tecnologia japonesa, na época), o Norte-Americano Bob Hayes não precisou de centésimos em sua marca. O velocista, que depois seria contratado para jogar futebol-americano, correu os 100m em 10.00s, novo recorde mundial. Na época, a marca de Bob Hayes foi considerada extraordinária, e alguns pensavam que essa marca era insuperável. Mas os que estavam atentos à evolução dos corredores viram que estes 10 segundos cravados eram um prenúncio para novas conquistas. A pista onde eles correram, em Tóquio, ainda era de terra.

Naquele ano, já se sabia que a sede dos próximos Jogos Olímpicos seria a Cidade do México, que fica 2.235 metros acima do nível do mar. Já há algum tempo os cientistas vinham estudando os efeitos da altitude no corpo humano, e particularmente, nos atletas. Já se sabia que em regiões altas há menos ar do que no nível do mar. Isso causava dois efeitos diferentes, mas ambos arrasadores: para os corredores de longa distância, era péssimo, pois diminuía a capacidade de oxigenação do sangue e na pista provocava tonturas, desmaios e abandonos de prova. Para os velocistas, contudo, era excelente, porque diminuía a resistência do ar, o que propiciava o estabelecimento de marcas fantásticas.

Não bastasse o fator altitude, na Cidade do México a IAAF estreava a pista sintética. O material emborrachado que até hoje cobre as pistas de atletismo(mas que passa por aperfeiçoamentos constantes, como o da pista do Ninho do Pássaro, em Pequim) era um avanço magnífico em comparação com as pistas de húmus compactado que haviam até então, e que, em dias de chuva, transformavam a pista em um lamaçal. Com estes dois fatores, cairiam no México os recordes mundiais do salto em distância, salto triplo, 110m e 400m com barreiras, revezamento 4 x 100m, 400m, 200m, e é claro, os 100m rasos.

Na prova mais rápida do atletismo, mais uma vez os EUA triunfariam. A vitória coube a Jim Hines, com a marca de 9.95s. Era quebrada a barreira dos 10 segundos, façanha que alguns entendidos do atletismo só anunciavam para o século XXI. Além de altitude e da pista, um outro fator passou a chamar a atenção para explicar a vitória: na final dos 100m rasos, oito corredores negros.
No final da década de 1960, a genética passou a estar presente nos estudos de educação física e esportes. Começavam a surgir repostas plausíveis para descobrir porque o biotipo dos negros era ideal para a corrida, pois era inegável que evoluíam com facilidade. Na época, muitas discussões a respeito dos negros estavam muito distantes do esporte, diziam respeito aos direitos civis.

1968 foi o ano do assassinato de Martin Luther King. Ele, como outros líderes, lutava pela igualdade social entre todas as raças. Não só nos EUA, mas em várias partes do mundo, a raça negra sofria forte preconceito racial. Ali mesmo, na Cidade do México, os medalhas de ouro e bronze dos 200m rasos, Tommie Smith e John Carlos, foram banidos do atletismo depois de fazer no pódio um protesto em favor da causa negra.
Havia, na prática, poucos setores onde a raça negra tinha oportunidades mostrar seu valor. O maior deles foi certamente o atletismo. Nas provas de velocidade, os Negros americanos deixavam todos comendo poeira. Nas provas de fundo, os africanos, especialmente etíopes e quenianos, iniciavam uma hegemonia fortíssima, que dura até hoje, com raras exceções.

O esporte foi uma das portas que a raça negra abriu para incluir-se, com plena justiça, em posição igual à dos brancos, depois de séculos de discriminação.

Década de 70
Depois do recorde assombroso de Jim Hines de 1968, o homem viu que o limite da velocidade do corpo humano ainda não havia chegado. Mas correr 100m em menos de 10 segundos não era tão simples assim. A União Soviética, que desde 1952 passou a ser um rival à altura(às vezes, superior) dos EUA em Olimpíadas, ainda não haviam produzido um campeão dos 100m rasos. E ele apareceu: nas Olimpíadas de Munique, em 1972, o ouro foi para o ucraniano Valery Borzov. Sua preparação como atleta foi um marco no atletismo. Para ele correr os 100m em 10 segundos, cientistas criaram um modelo matemático que aplicaram ao corpo e à corrida de Borzov, em um trabalho similar ao desenvolvimento aerodinâmico de um carro.
Mas um fator mais "humano" explica a vitória de Borzov: os dois americanos favoritos, Eddie Hart e Rey Robinson(recordistas na cronometragem manual, com 9.9s), não correram porque seu técnico, Stan Wright, cometeu um engano e passou para eles o horário errado da semifinal, assim, eles a perderam. O único americano que chegou a tempo, Bob Taylor, acabaria com a medalha de prata. O tempo de Borzov na final foi de 10.14s, que não lhe daria a vitória nas duas Olimpíadas anteriores.

Na Olimpíada de 1976, em Montreal, Borzov era favorito. Mas apareceram na prova, pela primeira vez, forças de uma região do planeta chama caribe. É bem verdade que o jamaicano Lennox Miller já havia arrebatado uma prata e um bronze nos 100m rasos nas duas Olimpíadas passadas. Mas faltava um ouro para a consagração dos velocistas caribenhos. E ele foi parar no peito de Hasely Crawford, de Trinidad & Tobago, com a marca de 10.04s. A prata ficou com o jamaicano que sucedeu Miller, Donald Quarrie. Quarrie venceria os 200m, e venceu a prata nos 100m com 10.06s. Valery Borzov fez exatamente o mesmo tempo com o qual venceu em Munique(10s14), mas desta vez a marca lhe garantiu o bronze. Começava a surgir, depois de Montreal, uma nova geração de velocistas nos EUA. Já se sabia então, que a sede da Olimpíada seguinte seria Moscou, e os Americanos sonhavam com a possibilidade de um americano vencer os 100m em solo soviético.

Década de 80
Os Americanos jamais correriam nas Olimpíadas de Moscou. Em 1979, o presidente Jimmy Carter anunciou que os EUA boicotariam as Olimpíadas de 1980 em razão da invasão Soviética ao Afeganistão. Assim, os soviéticos sonharam com a vitória de Alexander Aksinin. Ele previu sua vitória com o tempo de 10.1s, mas fracassou. Na final, acabou em quarto lugar. A vitória foi para o britânico Allan Wells, com 10.25s, uma marca que não lhe daria a vitória em nenhuma Olimpíada nos 20 anos anteriores. Este foi exatamente o tempo do cubano Silvio Leonard, e Wells venceu pelo photo-finish em uma chegada apertadíssima. Em outras provas de velocidade naquela Olimpíada o nível também cairia em relação à evolucção linear que vinham tendo.

Nos Jogos de 1984, em Los Angeles, os soviéticos é que ficaram ausentes. Mas os favoritos não estavam ém Moscou, e sim na América. O maior deles era candidato a repetir o feito de Jesse Owens em 1936, vencendos os 100m e os 200m, o revezamento 4 x 100m e o Salto em Distância. E ele conseguiu: tratava-se de Francis Carlton Lewis, conhecido como Carl Lewis, que tinha apenas 20 anos. Um ano antes, em Colorado, seu compatriota Calvin Smith havia quebrado o Recorde Mundial ao correr os 100m em 9.93s. Em Los Angeles, no entanto, ele não conseguiu medalha. O vencedor, com 9.99s, foi mesmo Carl Lewis, que ao final conseguiria as 4 medalhas de ouro que prometeu. O medalha de bronze foi o jamaicano naturalizado canadense Ben Johnson, que ainda daria muito o que falar.

Um ano antes da Olimpíada de Seul, no mundial de atletismo de 1987, em Roma, Ben Johnson assombrou o mundo ao tirar um décimo inteiro do Recorde Mundial dos 100m, cravando 9.83s. No mesmo ano de 1987, faleceu o pai de Carl Lewis, o campeão Olímpico em exercício. No enterro, ele depositou a medalha de ouro obtida na prova e prometeu ganhar outra em Seul. O duelo prometia ser sensacional e foi. Ben Johnson cruzou em primeiro com 9.79s, novo recorde mundial, e Carl Lewis ficou com a prata cravando 9.92s. No dia seguinte, contudo, os laboratóriaos anti-doping de Seul detectam na urina de Johnson a presença de anabolizantes. O vencedor é despojado do ouro, da glória e da reputação, e Carl Lewis, no fim das contas, ficou com o ouro.
Além disso, Johnson teve invalidada sua marca de 9.83s, assim, o recorde mundial passou a ser o 9.92s anotado por Lewis na final.
O doping de Johnson abriu uma ferida não apenas no movimento olímpico, mas no esporte em geral. Não se podia mais ter certeza da legitimidade de uma vitória ou de um fantástico recorde mundial. Não se sabia mais em quais das marcas se podia confiar. Quais seriam produto de doping? Ben Johnson foi flagrado por uma falha na aplicação de seus esteróides, e não pela eficiência do controle anti-dpoing. Visando solucionar esse problema, a IAAF passou a fazer inspeções anti-doping surpresa nos atletas. Mas a dúvida, inimigo cruel, ainda permanece em muitos casos.

Década de 90

A Jamaica é o país de nascimento de Ben Johnson, o vencedor dopado de 1988. O medalha de bronze daquela prova, Linford Christie, também era jamaicano, mas naturalizado britânico. Em 1992, Barcelona, ele tinha reais chances de ouro porque Carl Lewis sequer conseguiu vaga na seletiva Americana para a prova. E não deu outra: vitória de Christie, para a Grã-Bretanha, com o tempo de 9.96s. A Jamaica continuaria sofrendo com a naturalização de seus velocistas por outros países.

Na Olimpíada de 1986, Donovan Bailey, nascido em solo jamaicano mas naturalizado canadense, como Ben Johnson, venceu e bateu o Recorde Mundial na Olimpíada de Atlanta-1996. Em solo Norte-Americano, os EUA esperavam que um nativo vencesse a prova mais rápida do atletismo, que teve tradicionalmente um domínio ianque. Mas não houve nenhuma bandeira americana no pódio. Donovan Bailey que marcou espetaculares 9.84s, teve junto a ele no pódio Frank Fredericks, da Namíbia, e Ato Bolton, de Trinidad & Tobago. Século XXI
Em Sydney-2000, os EUA voltaram ao topo do pódio com Maurice Greene, que estava na ponta dos cascos, e marcou 9.87s na Austrália. O segundo colocado foi Ato Bolton, de Trinidad & Tobago, e o terceiro, Obadele Thompson, de Barbados, atestando mais uma vez a força caribenha na prova.
Quatro anos depois, em Atenas, outro Americano venceu. Com 9.85s, o ouro parou no pescoço de Justin Gatlin. Francis Obikwelu, nigeriano naturalizado por Portugal, ficou com a prata com 9.86s e Maurice Greene, com exatamente o mesmo tempo que lhe deu a vitória em Sydney, arrematou o bronze. Em uma competição no ano seguinte, Jutin Gatlin seria pego no anti-doping, mas como não foi provado que à época da Olimpíada ele já estava tomando esteróides, sua medalha foi mantida.


Chegaram, então, as Olimpíadas 2008. No dia 31 de maio deste ano, em Nova Iorque, Usain Bolt correu os 100m em 9.72s, quebrando assim o recorde Mundial que era de Asafa Powell(9.74s) e mostrando ao mundo que poderia fazer história em Pequim. Seus maiores rivais eram o próprio Asafa Powell e também o Americano Tyson Gay, atual campeão mundial, que um mês antes da Olimpíada correu os 100m em assombrosos 9.68s(a marca não foi homologada porque a velocidade do vento estava acima de 2m/s, o limite permitido pela IAAF). O duelo prometia ser sensacional em Pequim e a pista do Ninho de Pássaro, feita de um material aperfeiçoado na mais alta tecnologia, propiciava a quebra de novos recordes.

Usain Bolt correu todas as eliminatórias solto, como se estivesse trotando, apenas para se qualificar. Solto, passou pela primeira eliminatória com 10.2s. Nas quartas-de-final, parecia ainda mais solto, mas estava voando, correu em 9.92s aparentemente sem grande esforço. Ali o mundo começou a perceber que um recorde mundial era muito provável, se Bolt apertasse o passo. Correndo relaxado, fazia tempos que os maiores velocistas do mundo levaram décadas para conseguir.
Nas semifinais, seu compatriota Asafa Powell mostrou as armas, correndo em 9.91s, e mostrando a Bolt e aos outros que estava mais do que vivo na disputa pelo ouro. Bolt, tranquilo, foi além. Cravou 9.85s, tempo que já lhe daria a vitória em qualquer Olimpíada exceto Atlanta-96, e avançou à final. A surpresa ficou por conta da desclassificação de Tyson Gay, que vinha às voltas com contusões, e parou em sua semifinal com a marca de 10.05s, medíocre para seus padrões.

Enfim, oito homens se alinharam na pista do ninho de pássaro buscando entrar para a história. Na raia 4, Usain Bolt. Na raia 7, Asafa Powell, ambos jamaicanos. Bolt tem a segunda reação mais lenta ao sair do bloco, 0.16s, largadas nunca foram seu forte. Mas o jamaicano vem vindo. com 20 metros de prova ele se destaca. E vai aumentando, passada a passada, sua vantagem em relação ao resto dos corrdores, que estão em um bloco quase compacto. Antes mesmo de cruzar a linha, Bolt já sabe que a vitória é dele. Com o sorriso do ouro estampado no rosto, abre os braços e bate no peito, já solta a corrida, como fez nas eliminatórias. Ainda assim, marca 9.69s, para espanto dos torcedores do mundo inteiro. O novo maior velocista da história dança, pega uma bandeira da Jamaica, irreverente, alegre. Comemora com o público e o cativa.
Bolt estabeleceu não apenas um novo recorde, mas um novo padrão para os 100m rasos. Seu tipo alto e esguio contrasta com a maioria dos velocistas, fortes e atarracados. Ele marcou 9.69s desacelerando nos metros finais. Tem apenas 22 anos de idade. Com uma pista como a do ninho de pássaro e as inovações tecnológicas que surgem, ninguém sabe até onde ele ou outro corredor será capaz de levar o recorde dos 100m rasos. Nos próximos anos, é certo, acompanharemos homens rápidos como nunca houve antes.

Rafael Neves

Um comentário:

Ministro Eduardo disse...

Acho que eu consigo fazer uns 30 metros em 9 segundos... se estiver na altitude...

Olimpíadas são fascinantes!
Conhecer a história é ainda mais...