Michael Phelps ganha seus 8 ouros e entra para a história
Ele conseguiu. Depois de uma semana caindo na água para nadar eliminatórias, semifinais e finais, Michael Phelps contabilizou sete recordes mundiais, oito medalhas de ouro, marca que nenhum atleta na história conseguiu. Michael Phelps já era, antes da Olimpíada de Pequim, um dos maiores atletas Olímpicos da história.
Em Sydney-2000, estreou em Olimpíadas, com apenas 15 anos de idade, mas não conseguiu medalha. Sua vez chegaria em Atenas. Assim como alguns nadadores americanos anteriores a ele, entrou como candidato a derrubar o recorde de sete medalhas de Ouro em uma mesma Olimpíada que pertencia a Mark Spitz, a lenda da natação que obteve a façanha em Munique-1972.
Em 2004, aos 19 anos, Phelps quase conseguiu. Ganhou seis medalhas de Ouro e duas de Bronze, superando o número de medalhas de Spitz, mas não de Ouros. Isso já seria suficiente para fazer dele um dos ícones do esporte mundial. Mais conturbada foi sua vida fora das piscinas. Já então uma celebridade Americana, tinha seus menores e mais simples atos observados, divulgados e amplificados pela mídia, como um pop star. Foi pego dirigindo alcoolizado, em Novembro de 2004, foi julgado e condenado a 18 meses de serviços comunitários. Pediu desculpas ao povo Americano e seguiu em frente. No mesmo ano, ingressou na Universidade de Michigan, a qual deixou em maio de 2008 para voltar à cidade natal, Baltimore, em Maryland.
Phelps, esportivamente, passou todo o período entre os Jogos de Atenas em estado de graça. No Mundial de 2007, em Melbourne, mostrou ao mundo quenão estava para brincadeira, conquistando sete medalhas de ouro, e que na Olimpíada, aos 23 anos, estaria no auge da forma. Chegou a Pequim na sua segunda tentativa de bater a marca histórica de Spitz.
Sua caminhada começou no dia 10 de agosto, às 10h da m
anhã do dia 10 de Agosto. Ali, seria preciso uma zebra muito grande para tirar de Phelps seu primeiro Ouro; era a prova dos 400m medley. Ele vencera essa prova em Atenas-2004, nos mundiais 2003 e 2007, e detinha o recorde mundial. E não deu outra: vitória do americano, com 4m03s84, quebrando mais uma vez o Recorde Mundial. Thiago Pereira acabou em oitavo nesta prova.
No dia seginte, às 11h25, a segunda e talvez mais difícil da finais de Phelps: o revezamento 4 x 100m livre. Os EUA eram favoritos, como sempre, mas França e Austrália tinham totais
condições de batê-los. Os Australianos, aliás, venceram em Sydney-2000, na primeira vez na história Olímpica em que os EUA perderam essa prova. Na ocasião, Ian Thorpe, então considerado o melhor nadador do mundo, arrancou num final emocionante para superar Gary Hall Jr., e derrotou-o na batida de mão, logo depois de ter vencido os 400m nado livre. Os EUA perdiam sua hegemoni nos 4 x 100m. 4 anos depois, em Atenas, Phelps já fazia parte da equipe Americana. Mas desta vez, os Americanos ficaram apenas com o bronze(um dos dois bronzes que impediu Phelps de conquistar a façanha dos 8 Ouros), atrás de África do Sul e Holanda. Em Pequim, havia muita coisa em jogo. Os EUA, cuja última vitória fora em Atlanta-1996, eram novamente favoritos. A França, com Alain Bernard e Amaury Leveaux(que seriam prata e bronze nos 50m livre, prova vencida por César Cielo), a maior desafiante. Phelps foi o primeiro a nadar pelos EUA, mas, para espanto de muitos,
entregou em segundo lugar, atrás do Australiano Eamon Sullivan. No segundo trecho, as posições se mantiveram. Na terceira parte, os EUA ultrapassaram a Austrália, mas não ficaram com a liderança, porque a França, com Frederick Bousquet, assumiu a ponta, e terminou o terceiro trcho com uma vantagem de 6 décimos de segundo sobre os EUA. Um agravante: o último nadador da França era Alain Bernard, o nadador mais rápido do mundo na distância, que venceria os 100m livre individuais no Cubo D´Água. A chance de vitória dos EUA estavam nas mãos do veterano Jason Lezak, de 32 anos, com a missão aparentemente impossível de ultrapassar Bernard. Mas ele conseguiu: na batida de mão, vitória Norte-Americana, por 8 centésimos de segundo. No sufoco, Phelps mantinha seu sonho vivo.
Mais um dia, 12/8, mais uma final para Phelps. Desta vez, os 200m nado livre. Os desafios de Phelps eram exorcisar um fantasma e garantir um lugar na história.
O fantasma a ser exorcisado era o da própria prova, já que foi a única individual que Phelps não venceu em Atenas. Ficou com o bronze atrás dos fenômenos Ian Thorpe, da Austrália, e Pieter van den Hoogenband, da Holanda, que juntos possuíam 8 medalhas de ouro em Olimpíadas. Phelps, sozinho, havia chegado à sua oitava medalha de ouro no revezamento. Era a hora de entrar para a história. o recorde de ouros em olimpíadas era de nove, e justamente nos 200m livre Phelps tinha a chance de igualá-lo. Depois dos 200m livre, Phelps só iria nadar provas que já vencera em Atenas. Portanto, era um momento decisivo. O maior desafiante de Phelps era o vencedor dos 400m livre em Pequim, o jovem coreano TaeHwan Park, de 18 anos. Alguns consideravam-no capaz de bater Phelps, mas não deu: prata para o coreano, ouro para Phelps, com quase dois segundos de vantagem. A vitória colocou Phelps na galeria definitiva de astros olímpicos. Mas ele queria mais.
Quarta prova: 200m borboleta, considerada uma das vitórias mais certas de Phelps. Ele caiu na água com as credenciais de recordista mundial, campeão Olímpico e Mundial e tendo feito o melhor tempo das eliminatórias. Na prova, ele assumiu a primeira posição logo após a primeira virada(os 200m são quatro piscinas) para não cedê-la a mais ninguém. Sua maior ameaça, o húngaro Lazlo Cseh, fez o que pôde para chegar ao ouro, mas Phelps não permitiu. Bateu na borda da piscina com um novo recorde mundial de 1m52.03s. Após a vitória, Phelps foi descansar. Seu próximo desfio era dali a apenas 50 minutos. 
O dia 13 reservou duas finais para Phelps. Menos de uma hora depois de vencer os 200m borboleta, Phelps era o primeiro homem americano a nadar no revezamento 4 x 200m livre, que ele já tinha vencido em Atenas. Na ocasião, a equipe era composta por ele, Ryan Lochte, Peter Vanderkaay e Klete Keller. Para Pequim, uma única mudança: ao invés de Keller, estava Ricky Berens. O favoritismo era todo Norte-Americano, e não houve remédio: a equipe dos EUA quebrou a barreira dos sete minutos, completando o revezamento em 6m58.56s, novo recorde mundial. Foi talvez o Ouro mais folgado de Phelps. Mas ainda faltavam três vitórias para seu grande objetivo. O consolo é que ele teria um dia de descanso. 
A sexta final de Phelps foi disputada na manhã do dia 15 de agosto. Os Brasileiros, que viram a prova à noite, tinham bons motivos para assistir a competição, já que Thiago Pereira era
esperança de medalha. De ouro seria um tanto inviável, já que Phelps estaria na água em uma de suas provas prediletas, os 200m medley(quatro estilos, uma piscina de cada um), mas havia chance de bronze, ou talvez prata. Mas infelizmente não aconteceu. O pódio foi exatamente o mesmo dos 400m medley, Phelps em primeiro(com novo recorde mundial), Laslo Czeh da Hungria em Segundo e Ryan Lochte, compatriota de Phelps, em terceiro. Thiago, que havia ficado em quinto lugar em Atenas, quatro anos antes, agora ficava em quarto, a um passo do pódio, certamente a posição mais cruel em uma Olimpíada. Quanto a Phelps, estava a apenas dois ouros de seu recorde: os 100m borboleta e o revezamento 4 x 100m quatro estilos.
Os torcedores americanos que torciam ardentemente por Phelps certamente estiveram perto de um ataque do coração nesta prova: os 100m borboleta. Depois da apertadíssima vitória americana nos 4 x 100m livre, o segundo ouro de Phelps em Pequim, ninguém poderia pensar que haveria uma prova mais acirrada. Houve, mas não se pode dizer que foi uma zebra. Nas
eliminatórias para essa prova, disputadas dois dias antes, a melhor marca classificatória coube não a Phelps, mas a um nadador sérvio de 24 anos, chamado Milorad Cavic, que nunca havia ganho uma medalha Olímpica. Na eliminatória, ele nadou na mesma série de Phelps e chegou 9 centésimos à sua frente, quebrando o recorde Olímpico que o próprio Phelps havia estabelecido na sua vitória em Atenas-2004. Chegou então o dia da final. Tensão no cubo D´Água. Nos primeiros 50 metros, Cavic vem em primeiro, com Phelps no seu encalço. Na televisão, torcedores do mundo inteiro observam os dois se aproximarem, Cavic um poco a frente de Phelps, Cavic e Phelps, Cavic e Phelps... Eles batem na borda da piscina. Aparentemente, Milorad Cavic bateu antes. Por uma ínfima fração de segunda, parece que o sonho de Phelps acabou. Até que a classificação sai, imediatamente apoós a chegada, com o nome de cada atleta e a bandeira de seu país aparecendo em cima de sua raia. Em primeiro Lugar: Michael Phelps, dos Estados Unidos, com 50.58s. Em segundo, Milorad Cavic, da Sérvia, com 50.59s. Um centésimo de segundo, uma diferença impossível de ser captada pelo olho humano. As imagens deram a impressão de que Cavic havia chegado antes. O Replay, então, mostra a verdade. Cavic(na foto à direita, todo de preto) finalizou sua última braçada na frente de Phelps, e se esticou para tocar a placa eletrônica que registra a marca. Mas seu impulso acabou com o dedo a milímetros do dispositivo. Uma fração de segundo depois, Phelps chegou e bateu na placa, um centésimo de segundo antes. Na transmissão da TV
Globo, Galvão Bueno narrava a prova. Ele também foi enganado visualmente, achou que Cavic tinha vencido até que a telinha mostrou o contrário. "Lá vem Phelps, vai ganhar, vai ganhar, vai ganhar... perdeu... Ganhou!!!!!" Mesmo que Phelps não tivesse ganho nada além desta medalha, ele entraria para a história. Foi uma prova épica que ficará para sempre na retina dos aficcionados pela natação. Ele igualara Mark Spitz, sete ouros. O único senão é que não venceu com recorde mundial, ao contrário de Spitz. Mas o objetivo não era esse. Agora só faltava um Ouro para Phelps encerrar sua jornada, e não dependia apenas dele. Seria no dia seguinte, o último da natação em Pequim, o revezamento 4 x 100m quatro estilos.
Sete medalhas de ouro em uma mesma Olimpíada. Falando-se muitas vezes, pode até parecer banal. É difícil calcular a extensão deste feito. A imensa maioria dos atletas treina quase todos os dias, em anos de sacrifícios, sonhando chegar aos Jogos Olímpicos para obter uma medalha. Em 1972, Mark Spitz conseguiu sete, e de Ouro. Este façanha não tinha perspectiva de ser repetida, talvez nunca o fosse. Mas foi. 36 anos depois, um outro Norte-Americano conseguiu. Mas não era o suficiente. Ele queria a oitava.
Para tanto, ele e três compatriotas(Aaron Piersol, Brendan Hansen e Jason Lezak) puseram-se em frente à raia 4 da piscina do Cubo D´Água com amplo favoritismo. A prova começa com os 100m do nadador de costas, no caso dos EUA, Aaron Peirsol, campeão dos 100m e 200m costas em Atenas-2004, novamente ouro nos 100m e prata nos 200m em Pequim. Ele foi o primeiro a terminar e passou a vez para Brendan Hansen. no nado de peito, na liderança. Hansen, contudo, não foi capaz de segurar o japonês Kosuke Kitajima, Our
o nos 100m e 200m peito nas duas últimas Olimpíadas e um dos maiores nomes da prova na história. Não apenas o japonês, como Brenton Rickard, da Austrália, ultrapassaram o Americano. Phelps caiu na água em terceiro lugar para os 100m borboleta, que lhe deram a épica vitória no dia anterior. Mais uma vez o americano provou que é o melhor do mundo na distância. Inspirado, retomou a ponta, e entregou em primeiro para Jason Lezak, que havia salvo o Ouro da equipe no 4 x 100m livre e fora Bronze(junto com César Cielo) nos 100m livres individuais. Lezak tinha como missão não ser ultrapassado pelo Australiano Eamon Sullivan. Se fosse para um nadador comum, seria pedir demais, mas Lezak conseguiu. Embora o Australiano tenha diminuído a diferença, não foi capaz de ultrapassar o veterano americano, que encerrou a prova sete décimos na frente, marcando um novo recorde mundial para a prova: 3m29.34s.
Era o fim da história. Michael Phelps conseguiu. Oito medalhas de Ouro em uma mesma edição dos Jogos Olímpicos. Os Jogos Olímpicos já deram muitos heróis e muitas histórias para contar. No momento em que as coisas acontecem, às vezes não percebemos o que realmente elas representam. Talvez nunca mais haja um atleta que repita a façanha. Quem gosta de esporte, quem gosta de Olimpíada, nesta e nas futuras gerações, sempre se lembrarão deste atleta. Ele será uma referência. Michael Fred Phelps II.
Rafael Neves
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