quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Análise sobre o Doping nos Esportes

Como bom jornalista, vou partir de um caso atual: Lance Armstrong, heptacampeão da Volta da França e um dos maiores ciclistas profissionais da história, está sendo acusado de ter disfarçado, em 2003, doses da droga EPO (um doping assíduo na lista dos proibidos) como se fossem injeções de vitamina. Ele afirma que é tudo mentira, e talvez seja, mas é mais um dos atletas de ponta do século XXI manchado com a suspeita de doping. Onde é que fomos parar?

Quando começou essa farra?

Não tem data certa. A origem do Doping no Esporte se perde ao longo do século XX. Em 1904, na maratona da Olimpíada de St. Louis, o vencedor, Thomas Hicks, estava prestes a desmaiar no meio da corrida quando foi impulsionado por umas injeções de estricnina e clara de ovo. Era um doping meio descarado e até perigoso (estricnina é um veneno capaz de matar), mas ninguém sabia o que era se dopar.
Doping "oficial" foi seguindo os trilhos da modernidade no esporte, mais marcante lá pelos anos 80, fim da Guerra Fria. Sintomas dessa modernidade:
Rebeca Gusmão, o caso que mais chocou o Brasil recentemente.

- O esporte profissional dominou completamente o amador, que ficou restrito aos quintais de casa. O mundo só queria saber de esporte profissional.

- A Televisão dominou o esporte. Os horários, os locais e as condições dos eventos passaram a ser moldadas de acordo com a rede de TV que comprou os direitos de transmissão ( e dos anunciantes que apareciam na telinha junto aos astros).

- Em busca de maior rendimento, atletas passaram a recorrer não à força física, mas à "força química". O Doping entrava em cena.

A compreensão do Doping

Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, alguns atletas de ponta começaram a levantar suspeitas por ser fortes demais, potentes demais ou resistentes demais para um ser humano comum. A maiora dos casos ficará para sempre na dúvida, já que não havia nenhum teste para comprovar uso de qualquer substância.

Só em 1967 o COI (Comitê Olímpico Internacional) compôs uma lista de susbstâncias proibidas e juntou médicos para elaborar testes. Mas pouco adiantou: nos anos 70, uma legião de mulheres da Alemanha Oriental (a comunista) ganhava competições com facilidade incrível. Qualquer um que olhasse para elas, juraria que estavam dopadas. Tinham musculatura de halterofilista e seus resultados eram semelhantes aos dos homens.

A natureza, sábia, não deixou barato, e resolveu que o Doping teria efeitos colaterias: tais mulheres passram a ter voz grossa, pêlos na cara, além de problemas mais graves do que a estética. Mas tudo parava na suspeita: elas raramente eram pegas no anti-doping.
O motivo? Os testes antidoping eram sempre avisados com antecedência. Assim, os médicos delas aprenderam como ministrar os anabolizantes de forma que o organismo eliminasse os rastros da droga a tempo. Só se ferrava quem era descuidado.


Se você é mulher e esportista, e pensa em se dopar, essa história vai te convencer do contrário. Em 1986, uma atleta de 20 anos, da Alemanha Oriental, ganhou o Arremesso de Peso no Europeu de Atletismo. Heidi Krieger, jovem, tinha uma carreira promissora pela frente.

Vamos combinar: arremesso de peso não é exatamente feito para donzelas, e Heidi Krieger não era nenhuma Miss Universo. Mas dava pra ver claramente que era uma mulher. Pois bem, ela teve anos de doping sistemático por parte dos seus treinadores.
Aliás, aqui vai algo em defesa das atletas: às vezes, elas eram dopadas sem seuqer saber disso, os treinadores colocavam os anabolizantes em suplementos líquidos ou injeções disfarçadas de vitaminas (como o caso do Lance Armstrong).
Enfim, o organismo de Heidi se mostrou mais suscetível ao Doping do que o normal. Ela começou, literalmente, a virar um homem! Pêlos na cara e em outros lugares, voz de tenor italiano, aumento incrível de testosterona. Ela se aposentou em 1990, e continuou adquirindo características masculinas muito tempo depois de parar com o doping.

Alô você, mulher que quer se dopar. Olhe essa transformação.


Em 1997, não teve escolha: como já era meio mulher-meio homem, Heidi Krieger decidiu assumir de vez sua nova identidade e fez cirurgia de mudança de sexo. Hoje, Andreas Krieger tem 44 anos de idade e é um ativista anti-doping. Ele tem um troféu em sua homenagem, o "Heidi Krieger Medaille", dado anualmente a um atleta que se destaca no combate ao doping.

Como se combate o Doping

Não vou colocar uma lista de substâncias proibidas e o que cada uma faz. Se você está interessado, pode consultar texos como esse, ou esse, de fácil compreensão para leigos como eu.

Hoje, há doping para tudo que você imaginar: aumentar a potência em corridas de velocidade, a resistência de maratonistas, a força muscular de halterofilistas, evitar tremedeira de atiradores... um mundo de opções.
Não adianta mais sonhar com um planeta onde ninguém se dopa. Sempre haverá gente tentando burlar as regras (mesmo com os horríveis efeitos colaterais), e é necessário aprimorar os métodos de combate.

Existe uma agência internacional, o Wada, responsável por esse combate. Ela foi fundada apenas em 1999, anos depois do caso mais famoso da história do doping: a medalha cassada de Ben Johnson nos 100 metros rasos nas Olimpíadas de 1988, em Seul.

O maior defeito dos combates anti-doping segue sendo o mesmo: a previsibilidade. Parece que os cientistas do mal estão sempre um passo a frente do controle antidoping. Eles arranjam novas de variadas formas de evitar que a droga seja detectada.

A mais comum é a dos diuréticos, que diluem a substância. Por essa razão, o diurético é também agora um item proibido (pono para nós). O problema é que a Wada não tem autonomia sobre todo o processo. Ela faz os testes, mas não define critérios.

Por exemplo: na Natação, quem controla o Doping é a FINA (a federação internacional), que adota um critério curioso. Em uma competição, são testados apenas alguns atletas, e por sorteio. Muitas nadadoras chinesas e alemãs passaram impunes após ganhar medalhas de ouro, porque sequer foram testadas.

Minha sugestão para melhorar esse panorama: infelizmente, aumento da repressão. Testes mais frequentes, com vencedores e perdedores, e muito mais testes-surpresa durante a época de treinamentos entre uma competição e outra. Só isso mesmo para combater essa coisa tão feia.

Um comentário:

Unknown disse...

Obrigado Rafael por seus esclarecimentos. Sou professor de Ed. Física e preciso escrever um artigo em um jornal sobre ética. Seus comentários foram objetivos e elucidativos. parabéns!!