O Dono da Bola
Em um tempo muito distante, quando a humanidade começava a caminhar com quatro rodas, um menino ganhou uma bola de presente de Natal. No dia seguinte, aparou o mato de um terreno baldio e convidou os amigos para um jogo de bola com os pés. Em breve, toda a garotada da vizinhança queria brincar. A turma saía da escola e ia direto para o campinho jogar com a bola do Dono da Bola.
Desde o começo, os moleques eram observados por Seu Nebiolo, dono de uma padaria a dois quarteirões dali. A coisa logo passou a atrair mais gente. Saindo do trabalho, as pessoas iam vê-los jogar todo fim de tarde, numa pequena multidão.
Um belo dia, a bola do Dono da Bola furou. Sem ganhar mesada, tiveram que juntar dinheiro para comprar uma nova. Só que o tempo livre era para jogar, nenhum trabalhava carregando compras ou vendendo dolé como outros guris. Até que o Dono da Bola teve uma ideia genial: pedir a colaboração daqueles adulto
s entusiasmados. No horário do jogo, o moleque passou a boina entre os presentes e amealhou o necessário.Mas logo os meninos perceberam que podiam ter mais coisas além da bola. Uniformes, por exemplo. Resolveram passar o chapeu diariamente. Foi um sucesso: em pouco tempo, lá estavam os times de roupa nova. Descalços, começaram a machucar o pé porque o campo foi esburacando. Tinham que replantar a grama e comprar sapatos.
Para essas coisas, o dinheiro dos espectadores não dava. Por isso, mais uma ideia surgiu. Querendo mais clientela, Seu Nebiolo resolveu pagar para colocar uns cartazes ao redor do campinho, com o nome do estabelecimento. O bairro aumentava, e a padaria do Seu Nebiolo virou a mais afreguesada da região.
Só que os cartazes da padaria do velho eram de papelão. Não podiam tomar chuva, precisavam ser cobertos. O Dono da Bola foi além: porque não fazer uma cobertura com um picadeiro, para que o pessoal pudesse sentar e não se molhar? Para isso era preciso bem mais dinheiro, mas não foi difícil: vendo que a padaria do velho Nebiolo ficou famosa, outros comerciantes o imitaram.
Ainda não pagava a cobertura, mas o Dono da Bola teve outro lampejo: pôs meninos a vender pipoca e amendoim torrado para o público durante as pelejas, em troca de metade do que eles ganhavam.
Tablado pago, sobrou dinheiro no cofrinho do Dono da Bola. E ele começou a pagar os jogadores do seu time, para estimulá-los. Mas o líder do outro time fez o mesmo com a sua turma. Os garotos largaram os estudos para treinar durante o dia. Os uniformes, novinhos, agora eram brinde de uma loja de roupas que queria aparecer nas camis
as. Só um detalhezinho de trinta centímetros na estampa.Veio o destino: numa manhã chuvosa, Seu Nebiolo morreu. Como sua rede de padarias era o que sustentava o pagamento dos meninos, o Dono da Bola cortou o pagamento. Ato reflexo, o time avisou que não ia jogar.
Sem jogadores, não havia espetáculo. A velha boina de recolher trocados foi esquecida a um canto. O palco das pelejas ficou às moscas, a bancada aos cupins, o mato cresceu de novo. Os guris, que já não eram mais guris, tiveram que enfiar a cara no trabalho. Era o fim daquela brincadeira de jogar bola.
Desiludido, o Dono da Bola voltou para casa. Foi ao quarto e tirou debaixo da cama aquela primeira bola, que ele guardara por tanto tempo. Na noite de Natal, com a grana curta, deu a velha bola ao filho, que adorou o presente. No dia seguinte, bem cedo, o guri saiu à procura de um lugar para brincar com a bola. Achou aquele terreno esquisito, com uma velha armação de madeira, o mato na altura dos joelhos. Não era lá um lugar muito bom, mas ele foi.
Rafael Neves
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