
Tem havido algum estardalhaço sobre a 5a edição dos Jogos Mundiais Militares, marcados para o Rio de Janeiro de 16 a 24 de julho. É uma competição grande, com 6 mil atletas de mais de 100 países. Algumas instalações que devem ser usadas na Olimpíadas já passarão por seu primeiro teste, o evento tem apoio do Governo Federal, do COB (Comitê Olímpico Brasileiro) e haverá atenção especial da mídia.
Os Jogos Militares (que devem custar mais de R$ 700 milhões ao Governo Federal) devem ser um sucesso, haverá benefícios, mas há uma coisa que preoucupa:
Inversão de valores
Para não fazer feio no evento que vai sediar, o Brasil está se preparando com afinco para os Jogos. Essa preparação, ao meu ver, teria duas maneiras de acontecer:
- A primeira, mais sensata e natural, é melhorar as condições de treino dentro das Forças Armadas, para que os militares possam atingir um nível competitivo.
- A segunda é recrutar, com alguma antecedência, atletas olímpicos já consagrados, para que representem as Forças Armadas na condição de favoritos.
Infelizmente, parece que o Brasil está dando prioridade à segunda opção.
Uma penca de atletas renomados têm sido chamados às fileiras da caserna para tomar parte nos Jogos. Alguns há tempos, outros bem recentemente. Atletas que alcançaram o topo do desempenho atlético fora dos quartéis. Atletas cujo desempenho (e eventuais medalhas) não será mérito das Forças Armadas, porque não passaram a vida treinando no meio militar. O exército já os pegou "prontos".
Além destes, vários já ganharam medalhas em Jogos Pan-americanos, e aí se destacam nomes como Jadel Gregório, do Salto Triplo, e Diogo Silva, do Taekwondo (que aliás entraram na Marinha, não no Exército).

Muitos países têm programas para fortalecer o esporte dentro do exército, para que este revele atletas que cheguem ao nível Olímpico. Aqui, acontece o contrário: o exército pega atletas que já chegaram ao nível olímpico, para que estes joguem na competição militar.
"Peixada"
"Peixada" é um termo popular, entre os militares, para designar uma espécie de "nepotismo" nos quartéis. Consiste na convocação de profissionais por fatores de parentesco com oficiais, ou motivos de outra ordem, ao invés da qualificação.
Os atletas incorporados pegaram um grande atalho: os do exército entram como 3º Sargento. Assim, usufruem de algumas regalias inacessíveis
para um recruta. Ganham auxílio financeiro (ligado ao Bolsa Atleta, do Governo Federal). Podem seguir normalmente com sua rotina de treinos, apoiados sobre a ótima estrutura (segundo alguns atletas) que o exército oferece.
para um recruta. Ganham auxílio financeiro (ligado ao Bolsa Atleta, do Governo Federal). Podem seguir normalmente com sua rotina de treinos, apoiados sobre a ótima estrutura (segundo alguns atletas) que o exército oferece.A maioria deles, que nunca havia pisado num quartel antes da convocação, entrou como sargentos temporários. Nada garante que seguirão ligados à vida militar depois dos Jogos, ou seja: é um simples recurso para fazer chover na horta do Brasil no quadro de medalhas do Mundial Militar.
Não é privilégio nosso
Justiça seja feita: o mundo inteiro usa esse mesmo truque. Na verdade, nas outras edições o Brasil teve somente militares "de verdade" na delegação. A Alemanha e a França, por exemplo, já contavam com centenas de atletas incorporados em seus times.
Assim, ficam naquele "mecanismo de defesa": já que os adversários vão colocar atletas de ponta, também vamos. Assim, os resultados e marcas obtidas na competição ficam bem perto das Olímpicas, os atletas realmente militares passam a um segundo plano, e os "Jogos Militares" dificlmente podem ser chamados assim.
Pontos Positivos
É claro que é ótimo para o Rio de Janeiro, que contará com um evento de alto nível cinco anos antes das Olimpíadas. É ótimo para a televisão (Rede Globo, Band, SporTV e ESPN, entre outras, estão credenciadas como emissoras oficiais), que vai lucrar mais: quanto mais atletas de fama e bons resultados houver nos jogos, maior o interesse do público, e por conseguinte maiores os patrocínios. É ótimo também para os patrocinadores, que vão ligar seu nome a um evento relativamente novo para o público, mas com grande apelo, e audiência inédita por aqui.
Mas a grande vantagem é para os próprios atletas recrutados. No exército, têm direito a apoio físico, médico, financeiro (R$ 1,5 mil para marinheiro e R$ 2,8 mil para 3º sargento do exército) e temporal. Será uma alavanca em suas carreiras. Se isso significar mais medalhas em competições internacionais e nas Olimpíadas de Londres-2012, ótimo, as Forças Armadas estão fazendo um bem danado ao esporte brasiliero. O problema é que...
O tiro saiu pela culatra
Ano passado, o nadador Kaio Márcio (estlio Borboleta, Ouro no Pan-2007 e finalista Olímpico) foi um dos incorporados como Sargento. Mas a FINA (Federação Internacional de Esportes Aquáticos) colocou o Mundial de Natação (em Shangai, na China) para começar no dia 24 de julho. A Natação nos Jogos Mundiais Militares, no Rio, termina apenas três dias antes, dia 21.
Alguns atletas estão dispostos a participar de ambas: nadam no
Rio, voam para Shangai, têm apenas dois dias para se preparar e já caem em piscinas chinesas. É o caso de Fabíola Molina, veterana de 35 anos.
Rio, voam para Shangai, têm apenas dois dias para se preparar e já caem em piscinas chinesas. É o caso de Fabíola Molina, veterana de 35 anos.Kaio márcio preferiu optar. Pensando na Olimpíada de Londres-12, vai ao Mundial em Shangai e não participa daquilo que o fez ser incorporado: ele não nadará pelo Brasil nos Jogos Mundiais Militares. A CDMB (Confederação Desportiva Militar do Brasil) pediu o adiamento da Natação, mas a FINA não abriu mão da data. Os militares ficaram compreensivelmente irritados.
Solução?
Isso não é mais "Jogos Militares", e sim "Jogos de Militares recém-incorporados". Para que os Jogos possam resgatar sua verdadeira cara (e cumprir o papel do exército como formador de bons atletas), vejo duas saídas:
- A viável, impedir a particpação de atletas de ponta que entraram no exército depois de vencer uma competição de grande porte (um Panamericano, Mundial ou Olimpíada, por exemplo).
- A menos preferível, eliminar todos os esportes olímpicos do programa dos Jogos Militares. Assim, disputam-se apenas os essencialmente militares, nos quais os soldados são mesmo os melhores do mundo. Tais como Corrida de Orientação, Paraquedismo, Pentatlo Militar, Naval e Aeronáutico. Mas não acho que seja preciso chegar a esse ponto.
O presidente da CDMB, José Gambôa, assume abertamente o recrutamento-relâmpago: "Jogos Mundiais Militares não é um jogo dentro do quartel ou só de militares. São Jogos dos brasileiros". Bem, se não são apenas de Militares, deviam ser. Senão, não faz sentido dividir, ou faz?
PS: Se você é contra algum fato ou opinião deste texto, coloquei links para todos os pontos da minha argumentação. Não são palavras minhas, e sim de outras pessoas.
E mais: embora a Organização dos Jogos Militares tenha montado uma excelente assessoria de comunicação, ela não é tão útil quando se precisa mesmo. Na hora de entrevistá-los, do vamos ver, repassam a palavra a algum sub-oficial que "não está autorizado" a falar com repórteres. Eles só divulgam aquilo que convém a eles. Tentei por três vezes, no ano passado, obter respostas satisfatórias, sem sucesso.
E as Forças Armadas como um todo parecem ter aversão a ceder qualquer informação a jornalistas, por mais insignificante que seja. São fechados, sem motivo. Extrair alguma coisa é mais difícil que passar um mês numa trincheira.
Um comentário:
Neves, o visionário!
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