sábado, 12 de fevereiro de 2011

O Resgate da Celeste Olímpica

ADVERTÊNCIA: Se você gosta de história do futebol, leia este artigo. Se não gosta, leia também, quem sabe você muda de ideia.
O que você vai fazer do seu sábado à noite? Vai visitar algum parente? Vai sair pra balada, tomar um birinaite? Ou vai só ficar em casa mesmo? Se a opção for essa última, ligue a TV na Rede Bandeirantes ou na SporTV, às 0h10min, para ver o ato final da odisséia brasileira rumo às Olimpíadas de Londres-2012.

Não vou dizer uma palavra sobre como o Brasil pode conquistar esse ouro, porque ainda não estamos garantidos. Estamos quase. Para a seleção ficar de fora, temos que perder, a Argentina tem que ganhar, e compensar a diferença de seis gols de saldo que temos sobre eles. Só um milagre nos tira de lá, o técnico da Argentina já jogou a toalha (para a imprensa), Neymar está de volta, mas não custa esperar mais um pouco para comemorar de vez. Vamos falar dos três personagens desta história: Uruguai, Brasil e Argentina. Uruguai renasce

O Uruguai já garantiu que estará na Olimpíada de Londres, ao vencer a Argentina por 1 a 0. A seleção uruguaia já foi Campeã Olímpica no futebol. Duas vezes seguidas. Mas nenhum dos jogadores daqueles títulos está vivo para ver isso. Aliás, há algum tempo: o último sobrevivente daquelas campanhas morreu em 1989. É porque os títulos do Uruguai foram nos longínquos anos de 1924 e 1928. Naquela época, o mundo era um lugar muito diferente.

O futebol existe em Jogos Olímpicos desde a segunda edição, em 1900. Mas no começo ninguém dava muita bola para as Olimpíadas em geral, quanto mais para o inexpressivo torneio de futebol. Mas a popularidade foi crescendo devagar. Ainda não havia Copa do Mundo, e a FIFA (fundada em 1904) faria da Olimpíada o palco principal para o futebol até 1930. Na Olimpíada de Paris, em 1924, a popularidade explodiu de vez. O público reunido para ver a final foi de 60.000 pessoas, maior do que a platéia de 40.000 que viu o Rugby, esporte nacional francês.

E olha que a França nem estava na final do futebol: os parisienses no estádio de Colombes foram prestigiar uma seleção vestida de azul celeste, que venceu a Suíça por 2 a 1 e inaugurou um apelido: Celeste Olímpica. O Futebol continuou ganhando popularidade, e com ela, encrencas. Nas Olimpíadas, só eram aceitos atletas amadores, e a Inglaterra (que já tinha seu futebol totalmente profissionalizado e só mandava os realmente amadores aos Jogos) protestou contra o falso amadorismo dos outros times. Nestes, os jogadores tinham empregos de fachada, que garantiam a carteira profissional em dia, mas eram pagos mesmo para treinar.

Com esse estratagema, o Uruguai ganhou novamente o futebol em 1928, na Olimpíada de Amsterdã. Derrotou a Argentina na final. Derrotaria a mesma Argentina, dois anos depois, na final da primeira Copa do Mundo. O Uruguai é um país pequeno, com 170 mil km² (60% da área do Rio Grande do Sul). À época dos dois ouros e da primeira Copa, sua população era de 1,85 milhões de pessoas. Mas sem dúvida tinham o melhor time do planeta.

Teve ainda a glória de vencer a Copa do Mundo em 1950, no Brasil, em um episódio sobre o qual tudo já foi escrito. Mas depois começou a minguar. Na Copa seguinte, em 1954, ainda era favorito, mas parou na semifinal. A partir daí, tornou-se um time comum. Passou a ser a segunda força sul-americana quando foi ultrapassada pelo Brasil, a terceira quando foi superada pela Argentina, e entrou na década de 1990 em um nível semelhante a Paraguai, Colômbia, Chile e Peru. Era só mais um sul-americano que raramente ia à Copa.

Em termos de esporte Olímpico, as glórias pararam também lá atrás, em 1928. O Uruguai nunca mais conquistou um Ouro em Jogos Olímpicos depois daquilo.

Pois agora eles parecem estar renascendo. Qurenta anos depois da última vez, o Uruguai voltou a uma semifinal de Copa, no ano passado. Agora, volta às Olimpíadas. É uma pena, para os uruguaios, que umas duas gerações de torcedores tenham passado pela face da Terra sem ver a sua seleção brilhar. Mas agora eles podem voltar a se orgulhar da sua Celeste.

Brasil e sua obsessão

O Brasil teve um caminho totalmente inverso ao do Uruguai. Enquanto eles brilhavam, na década de 20, o Brasil mal existia na Olimpíada. Em 1920 ganhamos um Ouro, uma Prata e um Bronze, no Tiro (esporte onde nunca mais ganhamos nada), e depois sumimos por um bom tempo. Quando o Uruguai ganhou seu segundo ouro em 1928, o Brasil nem enviou uma delegação a Amsterdã, em nenhum esporte. Esporte era tratado aqui como coisa de vagabundo, porque não dava dinheiro e todo mundo precisava correr atrás do ganha-pão. O futebol aqui ainda era semi-profissional.

Nas primeiras Copas, enquanto Uruguai e Itália brilhavam, o Brasil fazia campanhas ruins porque Paulistas e Cariocas brigavam para ver quem punha mais jogadores na seleção e o resultado era um time enfraquecido. Em 1950, no Maracanã, o Uruguai deu sua última estocada no futebol brasileiro: era o fim de uma era.

De lá para cá, ganhamos cinco Copas do Mundo, e entramos de vez no cenário das Olimpíadas, com Ouros no Atletismo, na Vela, no Judô, no Vôlei, no Hipismo e na Natação. Mas nunca no futebol.

O motivo? Na nossa melhor safra de craques (anos 50, 60 e 70), a Olimpíada ainda resistia no amadorismo. O futebol sofria com isso, porque estávamos em plena Guerra Fria. Os países capitalistas não tinham como trapacear a regra do amadorismo no futebol, porque os profissionais recebiam dinheiro dos clubes. Mas os comunistas podiam, porque todos os jogadores eram vinculados ao estado. Os ministérios do esporte do Bloco Leste registravam o jogador como funcionário público, e ele podia jogar tanto na Copa (palco dos profissionais) como nas Olimpíadas. Assim, eles levavam seus melhores times, enquanto nós mandávamos jogadores sub-20 que ainda não ganhavam dinheiro com futebol. De 1952 a 1980, só países comunistas ganharam o futebol olímpico.

Assim que o profissionalismo invadiu a Olimpíada, o Brasil bateu na trave duas vezes. Em 1984 (Los Angeles) e 1988 (Seul) ficamos com a prata. Em 1996 (Atlanta) e 2008 (Pequim), fomos bronze. Nossas mulheres também bateram na trave, foram prata nas duas últimas Olimpíadas.

E agora, será que dá?

Argentina em crise

Enquanto o Brasil malogrou no futebol das duas últimas Olimpíadas, e o Uruguai nem marcou presença, a Argentina brilhou. Em Atenas-2004, eles nos derrotaram no Pré-olímpico. Argentina e o Paraguai representaram a América do Sul nos Jogos. Foram Ouro e Prata. Comandada por Carlitos Tevez, a Argentina arrasou: Ouro vencendo suas seis partidas, 17 gols marcados e nenhum sofrido.

Quatro anos depois, em Pequim, a campanha não foi tão impressionante. Mas para eles teve certamente um gostinho especial: sob a batuta de Messi, nos lascaram um sonoro 3 x 0 na semifinal. Enquanto o Brasil ficava com o bronze, eles eram campeões de novo.

Agora, estão a ponto de ficar de fora. Mas não deixaram de nos fazer gato e sapato, mais uma vez: o Brasil perdeu por 1 x 0 para a Argentina, e é por isso que eles ainda podem nos tirar a vaga. Será que eles conseguem? É bom entrar em campo contra o Uruguai de olhos abertos, bem abertos. Essas perguntas começam a ser respondidas hoje (amanhã, na verdade), a partir de meia-noite e dez.

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