domingo, 13 de fevereiro de 2011

A Guerra da TV - Parte 1

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O Clube dos 13 e a televisão

O mês de março reserva uma decisão importantíssima para o futebol brasileiro. Não é a venda de nenhum craque para o exterior, nem a construção de um novo estádio, tampouco alguma convocação de Mano Menezes. Mas o que for decidido pode afetar seu time no setor que mais gera preocupações: o financeiro.

A decisão é sobre qual rede de televisão irá deter os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro durante três anos (2012 – 14). Na mesa de negociação, um patrimônio de valor quase incalculável: três anos de primazia na audiência toda a quarta e domingo por quase 150 semanas, o que significa uma fortuna com publicidade. Vai muito além do futebol.


E quem está briga? Na teoria, Rede Globo de um lado e Rede Record (em associação com a Rede TV!) de outro. E o palco dessa briga, em tese, é Clube dos 13, que negocia os direitos, e o Cade (conselho administrativo de defesa econômica), um órgão do governo federal (com o bonito nome de autarquia) que pode dar pitacos e vetos sobre movimentações gigantes entre empresas.

Eu não sou um privilegiado que está por dentro das negociatas que acontecem por trás das cortinas nesse momento. Assim, não sei o quanto isso é mesmo uma briga ou só uma encenação de briga, para que no final todo mundo saia levando o seu quinhão.

Mas o enredo é tão complexo que terá que ser explicado em capítulos. O de hoje é sobre como o Clube dos 13 nasceu e adquiriu os direitos de televisão.

Como em um passe de mágica

A chave de todo o processo (que deve ser definido, segundo Blogs confiáveis, já em março desse ano) é o Clube dos 13, que detém a venda dos direitos televisivos. Poucos bens no mundo, financeiramente falando, são tão valiosos como uma concessão de transmissão de TV aberta.
Como o Clube dos 13 conseguiu tamanho poder?

A resposta está em 1987. Flamenguistas e cazá-cazás lembram bem dessa data, porque até hoje se discute a legitimidade do que foi o Brasileirão daquele ano: a chamada Copa União.

Do final dos anos 70 até 1986, o Brasileirão passava por uma dura pindaíba. Regulamentos esquisitos mandavam os times viajarem de norte a sul do país, secando os caixas. Duas “modas” começavam a pegar por aqui: atrasos compulsórios de salários e bichos, nos times grandes, e fuga dos nossos craques para o exterior, onde era possível ganhar mais e em dia.

A CBF, comandada por um simpático e austero velhinho, Giulite Coutinho, era uma instituição à beira da falência. Ainda em 1986, seria substituído por Octávio Guimarães, que apenas três anos depois deu lugar a Ricardo Teixeira (esse, como nós sabemos tristemente, está no poder até hoje).

A CBF anunciou, em 87, que simplesmente não tinha dinheiro para fazer o campeonato brasileiro. Cansados de jogar o campeonato dos malpagos, os principais times do Brasil (os doze grandes e mais o Bahia) decidiram criar um campeonato só com os feras. Sem viagens ao fim do mundo para enfrentar um time de trave-de-bambu do Tocantins, sem estádios vazios em casa devido a adversários de pouca expressão. Pela renda e maximização dos lucros. Assim nasceu o Clube dos 13.

Obrigado, Coca-cola

E o Clube já nasceu rico e mandando: a CBF só assistiu, de mãos atadas e bolsos vazios, eles fazerem um campeonato com os 16 melhores times do país no lugar do torneio nacional.

Foi um sucesso, em alguns termos: teve a segunda melhor média de público (20.877 pagantes por jogo, impensável hoje em dia) da história, e foi equilibradíssimo.
Mas principalmente, atraiu o interesse da caixinha mágica: a televisão passou a valer como nunca antes. E o Clube dos 13 teve poder de fogo de sobra para levar esse bem precioso.


Primeiro, porque reunia os times que representavam, segundo estimativas da época, 95% das torcidas. O público (que com a TV se torna um produto comercial valorizado), portanto, estava com eles.
Além disso o Clube dos 13 era comandado por empresários com exímia visão para o mundo dos negócios. Eles conseguiam tirar dinheiro da cartola de um jeito que a CBF jamais conseguiu.

Como? A resposta está no que você bebeu hoje no almoço, para acompanhar o frango e a macarronada, e o que foi fazer depois que terminou de comer: Coca-Cola e televisão. Sim, a multinacional sediada nos Estados Unidos foi responsável por salvar o futebol brasileiro da falência.

Está lá, no próprio site do Clube dos 13: “Clube dos 13 fecha parceria com a Coca-Cola e alcança o montante de US$ 6 milhões para cobrir as despesas da competição nacional”. Isso foi em setembro de 87.
Bahia e Inter jogam a final do Brasileirão-88. Em comum, o fato de "vestirem" Coca-Cola


Cedo, eles viram que esses seis milhões de dólares da Coca eram dinheiro de pinga. Dê uma olhada em fotos do Brasileirão-88 ou um dos seguintes: quase todos os times, de repente, passaram a estampar na camisa a marca da Coca-Cola. Todo mundo recebia sua mesada dela. É claro que a Coca não era burra. Por esse preço, divulgou sua marca nos uniformes, nas placas do estádio e nos anúncios da Globo.


Indo um pouco mais longe, a Coca-Cola não foi só salvação da lavoura do Futebol Brasileiro, mas do Futebol Mundial e até das Olimpíadas.


João Havelange é um simpático velho que manipulou o Futebol Brasileiro por quatro décadas e o Mundial por mais de duas em benefício próprio, e teve o Brasileirão-2000 batizado em sua homenagem. Na verdade, o nome oficial da Copa União (chamada assim devido ao patrocínio da empresa de açúcar) também era Taça João Havelange.
Para ser presidente da FIFA, Havelange prometeu mundos e fundos, e a Coca-Cola pagou suas promessas

Sabe como ele virou presidente da FIFA, em 1974? Prometendo dinheiro e recursos a todos os dirigentes de futebol do mundo, e falando em aumentar os países na Copa de 16 para 24. Isso custava dinheiro, e na época de campanha ele ainda não sabia como pagar. Elegeu-se, fez amizade com o presidente da Adidas, e a Coca-Cola o socorreu. Resultado: em 1982, com Havelange consolidado no poder, a Copa passou a ter 24 seleções. Foi o dinheiro da Coca-Cola que tornou o esporte moderno (tanto nos pontos bons como nos podres, que são muitos) naquilo que é hoje. Mas isso é outra história.

Continua...

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