2
Ousadia sem limites
A grande vitória do Clube dos 13 foi destruir um mito: de que a televisão, com transmissões ao vivo, afastava os espectadores do estádio e diminuiria as rendas. A Copa União de 87 provou o contrário.
Primeiro, ela tornou de fato o campeonato mais rentável para o
Depois, a média de público esteve nas alturas, e estranhamente, graças à TV. Levando o Brasileirão a 40 milhões de lares, ela reviveu o interesse do brasileiro pelo seu campeonato nacional, que seguiu fiel aos estádios (isso era possível, é claro, porque já existia a regra de não transmitir o jogo para a cidade onde ele acontece, mas em todo o resto do Brasil).
Ou seja: apesar de ter sido montada para dar o máximo de exposição possível à TV, a Copa União foi sucesso de público nos estádios.
Logo em 1987, o Clube dos 13 já tinha os direitos televisivos em mãos. Neste ano, os vendeu pela quantia de US$ 3,4 milhões, à Rede Globo. Esse custo era baseado nos US$ 70 mil que a Globo tinha pagado para transmitir a final do Campeonato Paulista de 87. Todos os Jogos que a emissora veiculou, na Copa União-87, foram vendidos a esse preço. O total deu US$ 3,4 milhões.
O abuso
A partir daquele ponto, não havia mais segredo. A Globo sabia que valia a pena pagar para transmitir jogos, porque o Brasil inteiro ligava a TV e via os produtos anunciados. O Clube dos 13, por sua vez, sabia que a Globo estaria disposta a pagar mais, se fosse manobrada com jeitinho, porque era um privilégio muito caro para ser entregue assim, de bandeja, a outra emissora. Apesar disso, a Band entrou na parada durante os anos de 1990-91, mas não durou: o poder de fogo da Globo era muito maior.
E os preços foram subindo: em 94, foram US$ 6 milhões. Em 95, US$ 10,4 milhões. Em 96, R$ 15 milhões.Em 1997, duas novidades. Primeiro, a Globo se associou oficialmente ao Clube dos 13 e ganhou exclusividade. A partir dali, não se fazia mais leilão (embora não se possa chamar a concorrência que houve até ali de “democrática”), a Globo simplesmente acertava o preço com o Clube dos 13 e pronto.
A outra novidade foram os “contratos para triênios”: a Globo não fechava mais acordo para transmitir o Campeonato daquele ano, e sim daquele e dos dois seguintes. O motivo? O Clube dos 13 poderia assim abusar mais ainda e aumentar seu preço de maneira obscena.
Tente entender: até ali, a Globo comprava os direitos para um só campeonato, o que dava uns 30 jogos, em média, na década de 90. Trinta jogos são trinta horários nobres, trinta espaços para anunciantes, e trinta vezes o dinheiro que a Globo lucrava com anúncios em um dia. Com o contrato para o triênio, triplica-se tudo isso! São três vezes mais dinheiro, o dinheiro de um ano inteiro!
Nem me atrevo a calcular quanto dá isso, os herdeiros do Roberto Marinho devem saber muito bem. O Clube dos 13 sabia que podia por o preço na estratosfera: a Globo não tinha como blefar e fingir que o valor não compensava. Continuava compensando, e de longe. A Globo estava de joelhos.
Assim, pagou pelo triênio de 97-98-99 a inédita quantia de 50 milhões de reais (vale lembrar que até então os contratos tinham sido fechados em dólares). Aparentemente, valeu bem a pena: ainda em 99, já negociaram os direitos para as próximas três temporadas (2000-01-02). O valor foi novamente 50 milhões... de dólares! Na cotação da época, dava 86 milhões de reais. Em treze anos, o preço que o Clube dos 13 cobrou pelo Brasileirão passou de 3,4 para 86 milhões de reais (aumentou em quase 25 vezes!).
E o século XX ainda reservou uma última novidade: em 1997, pela primeira vez o Brasileirão foi transmitido em pay-per-view, menina dos olhos da TV por assinatura. Na época, não representava nem 10% do total dos direitos televisivos, mas nascia o embrião do que é hoje um monstro financeiro de duas cabeças: pay-per-view e TV aberta. Mas aqueles ainda eram os ingênuos anos 90...
Milênio novo, ideias novas, preços novos
Em 2001, uma decisão do Clube dos 13 redesenhou (para pior, muito pior) as “camadas sociais” do nosso futebol: dividiu as cotas para repassar aos clubes em quatro “grupos”. Essa estrutura se mantém até hoje: cada um dos grupos a seguir detém determinada quantia do repasse das cotas.
Na verdade, o Clube dos 13 criou quatro grupos, mas há outros times de futebol no Brasil que não são abraçados por sua enorme bênção. Assim, há seis grupos, na prática:
Grupo 1 – Corinthians, São Paulo, Palmeiras, Flamengo e Vasco
Grupo 2 - Santos
Grupo 3 – Botafogo, Fluminense, Cruzeiro, Atlético-MG, Internacional e Grêmio
Grupo 4 – Atlético-PR, Coritiba, Bahia, Vitória, Sport, Portuguesa, Guarani e Goiás
Renegados – Clubes fora dessa lista que estão na Série A
Mais renegados – Clubes fora dessa lista que estão na Série B
A partir daí, um abismo se criou entre grandes e pequenos (mais detalhes no capítulo 4, não perca!).
Fábio Koff preside o Clube dos Treze há quinze anos, em seis reeleições até agoraE como as cotas com a televisão têm sido cada vez maiores, ela é de longe a principal fonte de renda dos times.
No começo do século XXI, a TV suplantou de longe as outras três grandes receitas de um clube: bilheteria, sócio-torcedores e patrocinadores.
Hoje, sem Televisão, é completamente impossível realizar o Campeonato Brasileiro. Mesmo que houvesse dinheiro para isso (e definitivamente não haveria), seria como se nem houvesse campeonato. A TV testemunha tudo e paga por quase tudo. E o Clube dos 13 trabalhou arduamente para criar essa tendência.
O modelo atual toma forma
Retomando o aumento do preço da TV: no final de 2002, para os dois Brasileirões seguintes (2003-04), novo recorde no preço: 130 milhões de reais. A Globo, já associada ao Clube dos 13, não precisou levantar um dedo para vencer a parada: a compra dos direitos nem foi oferecida às outras emissoras.
Com total poder sobre o produto, ela revendeu os direitos à Record, mas com uma ressalva: os horários continuavam sendo determinados pela Globo. A Record apenas pagou um percentual fixo em relação aos 130 milhões (por ano) que os herdeiros de Roberto Marinho haviam pagado, para poder transmitir jogos que a Globo não passava. Mas no horário restrito que a Globo ofertava.
Obviamente, para evitar que a Record jogasse as partidas de meio de semana para mais cedo e as de sábado mais tarde (horário nobre onde a Globo põe o Jornal Nacional e as Novelas).
Próximo contrato: final de 2004 (para o quadriênio 2005-08). O Clube dos 13 fez um pequeno reajuste: R$ 300 milhões por ano. Mais uma vez, nada de democracia: a Globo acertou o preço diretamente com o Clube dos 13.
Em 2009, por fim, o contrato que vai vigorar até o fim desse ano: 1,4 bilhões de reais. Vale pelos três anos (2009-11), o que significa R$ 470 milhões por ano (um aumento de 60% em relação ao contrato anterior).
Acompanhe o quanto tem subido o preço do contrato. Qual será o próximo valor?Pela primeira vez, depois de 20 anos, houve licitação, todas as redes de TV foram convidadas a apresentar proposta. Mas foi menos democrático do que pode parecer: a Globo já tinha um aparato completo (Globo, Globosat e SporTV) para levar todos os sete pacotes de transmissão (desde a TV aberta até Internet e transmissão internacional). A compra de direitos agora é fragmentada, mas ainda não se sabe que regras serão adotadas no próximo acordo. Tudo está em negociação.
Continua...
Nenhum comentário:
Postar um comentário