quarta-feira, 20 de abril de 2011

História Pitoresca do Esporte Mundial - 5

Os prisioneiros do café

Em 1932, as Olimpíadas aconteceram em Los Angeles, EUA. Se você foi bom aluno de história, deve lembrar que em 1929 houve a Grande Depressão. Com as economias quebradas, os países mandaram aos EUA delegações pequenas, apesar do esforço da organização.

O Brasil sentiu isso diretamente. O esporte ainda estava longe de ser prioridade no governo daqui, mas o já empossado Presidente Getúlio Vargas ofereceu o Navio Itaquicê para a CBD (Confederação Brasileira de Desportos). Um gesto muito altruísta, não fosse por uma condição: para pagar a viagem, embarcaram 55 mil sacas de café junto com os atletas. O café deveria ser vendido em portos no caminho entre o Rio de Janeiro e Los Angeles.

Ato 1: a ida

Embarcaram no navio 375 pessoas, das quais apenas 82 eram atletas brasileiros (o restante eram dirigentes, treinadores e gente que conseguiu carona). A missão de vender café (que ainda era o grande carro-chefe da economia brasileira) não seria tão difícil décadas antes. Mas a crise assolava todos os mercados, e o café não escapou à regra. Por isso, se você imagina que eles não conseguiram vender quase nada, acertou. O Itaquicê chegou ao canal do Panamá com os porões cheios e os atletas com os bolsos vazios.

Na hora de cruzar o Canal (na época sob domínio dos EUA), mais um problema. Havia um pedágio a ser pago para fazer a travessia, exceto para Navios de Guerra. Na malandragem, o pessoal da CBD instalou dois canhões no convés do Itaquicê e o registrou como navio militar. Não adiantou: os funcionários do Canal notaram pequenos detalhes como a falta de fardas e armas daquela alegre e colorida tripulação tupiniquim, e não se deixaram enganar. Foi preciso mandar um telegrama ao Rio, pedindo dinheiro, e esperar quatro dias pela chegada da verba.

Depois de um mês de viagem estafante, dois Oceanos e uma tempestade que causou enjôos em quase toda aquela turma que jamais havia navegado antes, o Itaquicê chegou a Los Angeles. No porto de San Pedro, informaram à delegação que era cobrado o preço de um dólar para cada pessoa descer do navio. Com a ínfima quantia levantada com a venda das sacas, só dava para desembarcar 45 dos 82 atletas. Fizeram uma lista com os que tinham mais chances (não de medalha, é claro, mas de um desempenho digno) e os demais simplesmente ficaram presos no navio!

Outros treze atletas pagaram sua “fiança” do próprio Bolso, elevando o número de atletas do Brasil para 58. Os prisioneiros do café que não se vendeu rumaram para San Francisco, onde o desembarque era gratuito. Mas eles teriam que viajar todos para Los Angeles por terra, o que acabou não acontecendo, e eles voltariam ao Brasil sem competir.

Apenas um dos rejeitados deu um jeito: o corredor paulista Adalberto Cardoso. Tendodescido em San Francisco, imediatamente saiu correndo, caminhando e pegando caronas para percorrer os 550 km que separam as cidades em apenas dois dias.

Chegou a Los Angeles, no estádio Coliseum, com a incrível antecedência de dez minutos para sua corrida, os 10.000m. Teve tempo de calçar as sapatilhas, colocar o uniforme, fazer duas flexões de aquecimento e se alinhar para a largada. Chegou em último, vários minutos depois do vencedor, mas foi recompensado: o público no estádio ficou sabendo da sua odisseia para simplesmente poder estar ali, e ele foi aplaudido de pé.

Sobre os demais competidores, não há muito que falar. Ninguém conseguiu medalha. Um atleta do Salto com Vara perdeu a chance de ganhar um bronze se fizesse seu recorde pessoal, os demais ficaram em último lugar, e a equipe de pólo aquático ainda protagonizou um papelão ao agredirem o árbitro de uma partida e saírem vaiados da piscina.

Ato 2: a volta

Fim da aventura, todos novamente aboletados no Itaquicê, era hora de voltar para casa. Depois de quase um mês de viagem, a delegação desembarcou no porto do Rio de Janeiro. É improvável que os atletas esperassem uma recepção de gala, com banda, caviar e champanhe, mas o buraco ficava mais embaixo do que eles imaginavam.

Ainda durante a viagem de ida, no dia 9 de julho, estourou no Brasil a Revolução Constitucionalista de 1932. Os Estados de São Paulo, Rio Grande de Sul e Mato Grosso do Sul se levantaram contra o governo, iniciando um conflito armado que só acabaria em outubro daquele ano.

Boa parte dos atletas da delegação eram paulistas, e o Rio de Janeiro (capital federal) era potencialmente perigoso para eles. Viajar por terra até São Paulo, nem pensar, iriam acabar envolvidos em um tiroteio ao virar a primeira esquina. A solução encontrada é descrita por Maurício Cardoso, na obra 100 anos de Olimpíadas:

“Os 32 atletas paulistas nem saíram do porto no Rio. Ali mesmo embarcaram em um cargueiro que os deixou em Ilhabela, no litoral norte do Estado de São Paulo. De lancha atravessaram o canal de São Sebastião. Em terra firme, empreenderam a pé uma caminhada até a capital. Gastaram oito horas para escalar a Serra do Mar e pernoitaram num casebre à beira da estrada. No outro dia uma carona de caminhão os deixou em Caçapava, a 117 quilômetros de São Paulo. Depois de obter um salvo conduto do comandante local das tropas federais [seus “inimigos”], o grupo pôde embarcar no trem que finalmente os levou à capital

Foi com certeza o episódio mais glorioso da participação brasileira na Olimpíada de Los Angeles.”


2 comentários:

Lucius Marcus disse...

É assim foi eram tratados os atletas brasileiros. Coisa que ainda hoje, guardadas as devidas proporções, acontecem.

Luana disse...

Orra Rafa! tá bom pra caralho o seu blog, meu jovem!! continue assim! hahaha bjo!