sexta-feira, 1 de maio de 2009

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Debate avalia Curitiba na Copa do Mundo 2014
Apesar dos muitos problemas existentes, especialistas consideram certa a escolha da capital paranaense

“Quais são as reais chances de Curitiba ser escolhida efetivamente como uma das subsedes da Copa?”. Foi com essa questão que se iniciou o Papo Universitário organizado pelo jornal Gazeta do Povo e que tinha como tema “Curitiba na Copa de 2014: O desafio de receber o maior evento do futebol mundial”. Diante da pergunta do jornalista e mediador do debate, Luigi Poniwass, cada um dos especialistas convidados deu a sua opinião.
De acordo com Edson Militão, jornalista especializado em esportes, a inclusão da capital paranaense está garantida: “Podem estar certos que no dia 31 de Maio a FIFA [Federação Internacional de Futebol] anunciará Curitiba como uma das escolhidas”. O editor de esportes da Gazeta do Povo, Leonardo Mendes, compartilha do mesmo otimismo. “Concorrendo pelas 12 vagas existem 17 cidades, algumas das quais possuem graves problemas de infra-estrutura. Por falta de concorrência a altura, é certo que Curitiba será apontada”, declara Mendes. Já o pesquisador da Universidade de Liverpool e doutorando em Indústria do Esporte Oliver Seitz, é mais cauteloso. “Pode parecer certo, mas é sempre bom ficar com um pé atrás quando se trata de decisões da FIFA”, alerta Seitz.
A discussão do assunto começou no Brasil dia 30 de outubro de 2007, quando a FIFA ratificou o país como sede da Copa do Mundo 2014. A partir desta data, cidades brasileiras passaram a reivindicar o direito de ser uma das 12 cidades anfitriãs do maior evento do futebol mundial. Curitiba também lançou a sua candidatura, e, como receber um evento como esse requer investimentos em infra-estrutura e urbanismo, foi convidado a juntar-se ao debate o engenheiro civil formado pela UFPR e professor do Departamento de Trânsito da mesma instituição, Eduardo Ratton.
Reflexos para o futebol curitibano
Partindo do princípio de que Curitiba será contemplada, o debate passou a analisar o que é preciso fazer na cidade para que ela tenha condições de sediar os jogos. O Estádio Joaquim Américo, do Clube Atlético Paranaense, foi escolhido por Curitiba – em detrimento do Couto Pereira (Coritiba Football Club) e do Durival de Britto e Silva (Paraná Clube, que recebeu jogos na Copa do Mundo de 1950). A Arena da Baixada, como também é conhecido, deve receber ao todo 376 milhões de reais, se consideradas as reformas necessárias ao redor do estádio. As mudanças necessárias na Arena somam 138,3 milhões de reais, segundo a própria Gazeta do Povo, e serão bancadas graças a um empréstimo junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
As outras benfeitorias ainda terão de buscar patrocínio na iniciativa privada, mas segundo Leonardo Mendes isso não será uma tarefa fácil. “Hoje em dia, por conta da crise econômica, muitas empresas privadas estão deixando de investir em eventos, todas as modalidades já estão sofrendo com isso” explica ele, e complementa: “Obviamente a tendência vai se refletir na Copa do Mundo, e se faltar investimento privado não haverá escolha senão apelar ao dinheiro público”. Segundo Mendes, a provável falta de investidores dificultará que outros estádios da capital, que deverão ser usados como campos de treinamento pelas seleções, possam ser também beneficiados.
A indústria esportiva, que abrange todas as atividades esportivas em que haja movimento de capital, envolvendo venda de produtos, patrocínios, transmissões na mídia, venda de atletas e outras atribuições, também espera benefícios. Segundo o PhD no assunto, Oliver Seitz, todo o setor cresce em conjunto em época de Copa do Mundo. “Qualquer estabelecimento que esteja de alguma maneira associada à Copa e ao futebol em geral sairá ganhando”. Ele afirma que não há pudor em subir os preços na época do Mundial. “Todos veem a oportunidade de tirar dinheiro dos turistas”, explica Seitz.

As responsabilidades de Curitiba
Quanto à infra-estrutura urbana, Ratton afirma que ainda há muito para se melhorar: “Curitiba não é, no momento, capaz de atender a demanda de uma Copa do Mundo no quesito transportes, por exemplo”, declara o engenheiro. E acusa: “O nosso sistema de transporte público, que era inovador nos anos 70, está obsoleto hoje”. O professor da UFPR concorda com a necessidade do metrô e explica que essa é uma demanda da cidade, independentemente da Copa do Mundo. “O problema é que a atual ideia sobre o metrô, uma linha de 22 Km que atravesse Curitiba de Norte a Sul, levará de oito a dez anos. Não temos sequer o projeto, isso não se faz da noite para o dia e os custos são muito maiores do que os estimados”, aponta o especialista. Mesmo sobre a ideia de tentar se concluir, até 2014, ao menos as linhas próximas à Arena da Baixada, Ratton tem dúvidas. “Não será fácil. Além disso, é muito relativo o quanto tais linhas facilitarão o acesso ao estádio para turistas que podem estar em hotéis espalhados por diversos pontos da cidade”, conclui.
No entanto, é unânime a expectativa de grandes melhoras urbanas que serão um legado para Curitiba após a Copa, embora se pense que as expectativas não são absolutamente atingidas. De acordo com Leonardo Mendes, certamente não haverá recursos para todas as obras. “Cada cidade colocou, em resposta ao caderno de encargos da FIFA, todas as demandas antigas de obras na cidade, na esperança de que fossem todas atendidas. É inviável atender a tudo”. Uma das supostas necessidades é uma terceira pista no Aeroporto Afonso Pena, que, segundo Eduardo Ratton, não será construída. “Não é uma prioridade. No máximo, ampliarão a segunda pista, já existente”, justifica.
Financeiramente falando, espera-se que as cidades tenham o máximo de retorno possível com os lucros que a Copa proporciona. O problema, segundo Oliver Seitz, é que não apenas a cidade estará pensando na renda. “O evento pertence à FIFA. Em geral, eles repassam os custos às cidades e concentram o máximo possível das receitas”. Segundo Seitz, não há como escapar de recorrer aos cofres públicos. Quanto à chance de retorno de gastos, Edson Militão é mais otimista. “Quando há investidores, é possível cobrir todos os gastos sem mexer no bolso do contribuinte”, argumenta ele. Militão destaca as receitas que entram durante a Copa. “Com o fluxo de turistas, todo o setor comercial lucra enquanto durar a Copa, especialmente hotéis e restaurantes”.

Plateia participativa
As 225 pessoas que compareceram à platéia do Teatro Paiol, para ficar a par do desafio curitibano de receber a Copa, participaram ativamente do debate, expondo dúvidas e fazendo colocações. O representante da Rede Paranaense de Comunicação (RPC), Michael Aires, saiu satisfeito com o bate-papo. “A discussão foi mais abrangente do que eu esperava. Imaginei que os assuntos ficariam mais restritos ao futebol em si, mas foi possível ter grandes esclarecimentos com relação à infra-estrutura do evento”, ponderou Aires. Segundo ele, a conclusão tirada do debate foi otimista. “Sabemos que não será fácil, mas com a certeza de que é possível organizar algo deste porte”. Esta visão é compartilhada por Thais Alves, aluna da Universidade Positivo (UP). “Saio do debate empolgada, é uma ótima oportunidade de crescimento”, disse Alves, estudante de Turismo.
Ela acredita que a palestra em si foi incompleta devido à falta de pessoas especializadas. Sua colega de curso, Fabiana Lima, tem uma opinião semelhante: “Os palestrantes não eram diretamente ligados aos setores de organização, algumas divergências poderiam ser esclarecidas se houvesse alguém nessa posição”. As universitárias reconhecem, entretanto, que os palestrantes e o mediador, Luigi Poniwass, souberam levar o debate organizadamente. “Eles fizeram o que está ao alcance de um grupo para mediar um debate no qual participaram mais de 200 pessoas”, disse Thais.

O papel dos meios de comunicação
Em eventos esportivos de âmbito mundial, como é o caso da Copa do Mundo de Futebol, é fundamental que haja vigilância por parte da imprensa sobre os organizadores. É o que afirma Leonardo Mendes, na condição de editor de um jornal impresso. “Todos sabemos que, infelizmente, a organização da Copa estará sob a tutela de nossa classe política. A distribuição de recursos para o Mundial, infelizmente, estará nas mãos de um setor onde existe corrupção”, admite o jornalista.
“É uma ótima oportunidade para cobrarmos transparência. A imprensa do mundo todo estará aqui e cobrará os responsáveis pela corrupção, se houver. Um evento como estes, hoje em dia, exige abertura”, foi o que afirmou Edson Militão. Segundo ele, diante dessa realidade a importância do evento para Curitiba aumenta.
Com o acompanhamento da imprensa, é unânime o desejo de que a Copa do Mundo de fato venha para a cidade e seja um sucesso. Um consenso entre os especialistas do debate é que a Copa do Mundo será uma oportunidade única para o crescimento da cidade. A partir do dia 31 de Maio, em Nassau, Bahamas – data e local da decisão da FIFA sobre a escolha das subsedes – pode começar o desafio da capital paranaense.
Rafael Neves

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